terça-feira, 23 de dezembro de 2008

2009 e um desejo


Eu e minha boneca desejamos que 2009 seja de pura fantasia!
Como num sonho...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

"O Tigre Branco"

Mais um livro gostoso, que não pode faltar na sua cesta de leitura das férias. Daqueles que nos faz rir constrangidos, meio envergonhado de achar graça em tanta desgraça.

Vai lá:
http://diversao.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/2008/12/22/ult5668u71.jhtm

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

8 meses

(Depois da chuva, a flor que o Cenê e a Mi me deram)

A dor da saudade é física. É pontuda, fina, começa debaixo do peito, toma o corpo, paralisa, nos contorce. Depois foge pela testa. E deixa pra sempre um rombo que lateja.

A alegria do encontro também é física. Faz cócegas no centro do peito, se espalha pela barriga em ondas, alcança as extremidades do corpo com um arrepio. É doce, quase posso sentir. De tão profunda às vezes dói também - uma dor frouxa, que se joga fora com um suspiro.

p.s.: extraído de uma tarde de papo livre e inspirado com minha amiga Aline. Muitas dessas palavras são dela...
p.s2.: hoje é dia 18. Faz oito meses que acordo sem ele. E quase quatro meses que acordo com ela.
p.s3.: hoje tem show da Madonna. Se ele estivesse aqui, iria comigo, não sem antes (e depois) fazer piada da minha cara de fã e de todas as falhas que encontrasse no palco. E eu ia rir de tudo que ele dissesse...

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O que fica


Em 2008,
vivi minha maior perda e minha maior conquista;
chorei de amor incontáveis vezes, hora com tristeza, hora com alegria;
entendi o que é a dor da saudade e o que é a emoção do encontro;
perdi as esperanças, depois ganhei outras, verdes e com asas;
me senti só e fui abraçada por mil braços;
amadureci 100 anos e rejuvenesci outros 100.






terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O livro do ano

"A Viagem do Elefante", de Saramago, é o livro do ano - na minha mais modesta opinião. Ainda não li (estou lendo agora) "O Tigre Branco", mas em língua portuguesa duvido que algo me surpreenda mais nesse finalzinho de ano do que a hilariante travessia de salomão (o elefante) entre Portugal e Áustria, no século 16.
Saramago me provou que está em sua melhor forma, mesmo depois do Nobel e de quase morrer com problemas respiratórios. Nada mais a dizer a não ser: leiam! O livro é irônico, bem-humorado, cri-cri na medida certa. E viva a volta por cima de Saramago!

Resenha no:
http://diversao.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/2008/12/08/ult5668u67.jhtm

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Cenas de Julia

Tem tanta foto linda da minha filha com os amigos que resolvi abrir a Galeria da Julia. Postarei, vez ou outra, fotos dela em seus encontros. Vida social agitada tem minha gatinha, viu.

Érikita, que paparica a Ju por ela e pelo dindo


Mima, Caio e Ju em dos muitos momentos lindos nos braços da titia

A menina e Humberto - eles se conhecem desde a barriga


Aline (a dinda), Dani e Ju, num dia perfeito de parque e almocinho em casa

Euzinha, Ju e Caio (no centro) e a turma do primo: todos babaram na minha bebê

Aline, Txell, Fê e Ju - programinha gostoso de fim de dia tem bolo de cenoura e colo dos amigos


sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Gesto de boa vontade


Nesse link abaixo está o texto que eu fiz para o UOL sobre o livro "O Dom", de Nikita Lalwani (Nova Fronteira). Mas aqui quero acrescentar algumas impressões de ordem pessoal - tão pessoal que não ficaria bem colocar na resenha.

Esse é um (atualmente raríssimo) exemplo de livro de estréia muito bom. Não à toa, foi indicado ao Man Booker Prize do ano passado. Dá para resumir assim: não tem nada demais, além de um texto incrível. O enredo é de uma menina superdotada em matemática que a duras penas mantém a fama conquistada com o seu dom. Principalmente em família, já que o pai resolve prepará-la para entrar em Oxford com apenas 14 anos.

Sabe aquelas notícias de superdotados que entram na faculdade antes de começar o colegial? Rumi, a personagem do livro, é uma dessas.

Mas enfim, como digo na resenha, esse é um livro cheio de camadas e com duas delas eu me identifiquei bastante. Logo no começo da história, Shreene viaja pela Índia acompanhada da filha Rumi e vivencia alguns insights.

1. Shreene (a melhor personagem do livro) pisa na Índia aos 30 anos e com uma filha, depois de nove anos morando em Londres, para assistir ao funeral do pai. Logo no aeroporto de Délhi, ela se hipnotiza pelo cheiro de "poluição e pela poeira que se agitava no ar-condicionado abafado". E pensa que sua chegada em casa significava apenas uma coisa: "que ela teria de ir embora".

Acho isso ótimo porque conversa com um assunto muito delicado, ao menos para mim: minha relação com Recife, cidade onde nasci.

Eu acho Recife linda. Realmente, acho a cidade mais linda do país, só perdendo mesmo para Fernando de Noronha (mas aí não conta!). Só que eu não consigo me imaginar voltando a morar lá. Isso, para muitos recifences, soa com xingamento. Mas para mim Recife é a origem, a raíz, onde tudo começou e de onde eu sempre saio me sentindo preenchida de alguma coisa. É "a partir de" Recife que eu penso. E quando chego no Aeroporto dos Guararapes fico hipnotizada mais ou menos como Shreene.
2. A outra pira da Shreene, onde eu também viajei, é bem menos cricri. Em resumo, ela não sabia, mas quando esteve na Índia estava grávida do seu segundo filho. Quando os parentes souberam da gravidez, algum tempo depois, não resistiram à interpretação popular de que o bebê seria a encarnação do pai falecido. Claro que sua cabeça já bastante ocidentalizada não permite admitir uma loucura dessas, mas bem que ela fica balançada. E pensa: "Não havia como negar que Nibu (o nome do filho) era um gesto de boa vontade vindo de cima, tendo sido enviado em um momento de necessidade. Naquele novo deserto, onde seu afastamento parecia tão completo, Nibu cintilava e se remexia dentro de sua barriga como uma jóia em um escrínio de veludo."

Eu quase posso trocar a palavra Nibu pelo nome da minha Julia.


Ah, o link:

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

3 meses com ela

(Bolo de chocolate e um brilho nos olhos)




(Julia vestida para a festa. Stylist: Aline Lima)


Julia com três meses (completados hoje!) é uma menininha:

- feliz, muito feliz. Que dá altas gargalhadas, acorda bem humorada e curte muito sua vidinha tranqüila, cercada de dengos;

- saudável, absolutamente saudável. Eu já tive duas ameaças de gripe forte nesses três meses, que me deixaram pelo menos um dia baqueada, e ela, graças a Deus, nadica de nada;

- gulosa, que nunca rejeita uma mamada. Mesmo quando não está com fome, aceita um leitinho. O que acaba trazendo os transtornos da regurgitação. Culpa, claro, da minha ansiedade em oferecer o peito religiosamente a cada três horas. Vou começar a aumentar esse intervalo;

- inteligente, incrivelmente esperta. Não é porque é minha filha, não, mas essa menina é muito ligada no entorno. Presta atenção a tudo, observa com atenção pessoas e objetos, já reconhece (além de mim, claro) muita gente, como a dinda Aline, a tia Mima, a bá e a Cléo;

- sociável. Julia adora um bom papo na cozinha, igualzinho aos pais. Fica no colo só escutando a conversa, às vezes interfere com seus miados gostosos e sempre dá boas gargalhadas, sem ninguém entender muito bem as razões;

- nada chorona. É tão raro minha bebê chorar que quando acontece eu levo muito à sério, e não poupo colo e atenção. Muito dessa tranqüilidade tem a ver com a sintonia que já se estabeleceu aqui em casa. Eu e a bá conseguimos decifrar muito bem a linguagem corporal da Ju. E como se expressa com o corpo, minha filha. Fala com as mãos, com os pés, com grunhidos e, principalmente, com os olhos.

É por essas e outras que eu preciso comemorar cada aniversário da minha pequena. Hoje teve bolo aqui em casa, parabéns, velinhas, ensaio fotográfico, carinho dos amigos. E eu quero é mais...






quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Por que Woody Allen?

Trio de beldades na (para mim) melhor cena de "Vicky Cristina Barcelona"

Por que será que eu gosto tanto de Woody Allen? Algumas hipóteses:
- Eu me familiarizo com seus personagens. Sabe aquelas figuras que até podem ter uma sensibilidade fora do comum para as artes, mas no quesito neuras pessoais é completo analfabeto? Pois é, me sinto cercada delas. E eu própria enxergo muito de mim nesses tipos. Claro, os personagens de Woody Allen são o exagero, o ponto extremo – e é isso que eu adoro!
- Acho que viver exige bom humor. E nada em Woody Allen é tão trágico que não caiba uma risada. O melhor riso dele é aquele que, se não fosse cinema, você teria vergonha de achar graça.
- Sou um ser moderno, no sentido Benjamin da palavra, de estar sempre aberto a novas experiências. E Woody Allen é o melhor cronista da vida moderna. Ele tem o dom de filtrar entre tudo à nossa volta só o que é realmente novo e realmente impactante ao nosso jeito de viver. PS: o que é a cena em que Scarlett Johansson anuncia que vai deixar a casa de Penélope Cruz e Javier Badem e acaba ouvindo um sermão típico de pais espanhóis, dos amantes (foto acima)? Para mim, o melhor take do ótimo “Vicky Cristina Barcelona”.
- Eu amo Barcelona. Fiquei eufórica quando soube que ele ia filmar lá. A cidade está linda no seu filme – embora Oviedo apareça ainda mais bonita! Vai entender.
- Eu acho que beleza é fundamental. E, ultimamente, Woody Allen tem demonstrado pensar da mesma forma. Arrisco dizer que em “Vicky Cristina Barcelona” ninguém é menos que lindo. Até o burguês meio tolo tem lá seu charme.
- Eu sou uma ótima ouvinte, e ele tem muito que dizer. Tanto que produz um filme por ano. E eu realmente preciso de uma dose anual de Woody Allen, pelo menos. Em 2008, tive sorte – foram duas!

domingo, 16 de novembro de 2008

Como dois e dois são cinco

(Marquinhos, novembro de 2007, em Paris)

(Julia, hoje à tarde, com 2 meses e 20 dias, em São Paulo)

Uma coisa estranha move em mim sempre que me perguntam “como estou”. E me perguntam muito, e com sinceridade, graças a Deus. Invariavelmente, antes de responder, me paraliso um segundo. Sinto, mesmo que rapidamente, um misto de tristeza, medo e, vejam só, vergonha. É tão estranho que até vinha me irritando um pouco. Por que diabos me envergonha dizer que estou bem, apesar dos pesares? Que tipo de decoro é esse, tão sem sentido, que me faz ter medo do ridículo?

Hoje, pensando um pouco no sofá depois que a Julia dormiu, me dei conta. Entendi que minha noção de estar bem mudou tanto, mas tanto, que temo não ser compreendida. Em poucas palavras, acho que hoje eu me contento com menos para estar bem. Não dá para ser diferente, já que o maior desejo da minha vida é absolutamente impossível. Sabe quando seus pais perguntavam, na infância, que presente você queria para o Natal e você tinha certeza que o mais desejado (para mim um carro ou, pelo menos, uma moto) nunca você ganharia? É assim que me sinto. E, sendo assim, não me resta mais que aparar as arestas do desejo, e desejar menos, sempre menos para ser feliz.
É um exercício, viu. Claro, não dá para esquecer que eu tenho a Julia, meu eixo, meu ponto no círculo, que sorri quando me enxerga se aproximar do berço, às seis da matina. Estou completamente apaixonada pela minha filha, "um amor tão grande que dói" – exatamente como eu repetia ao Marquinhos. Ela me faz feliz, e também me faz refletir.
Não gosto de pensar que nosso amor era como um grão, e precisou morrer para germinar. Não gosto de imaginar que os céus só me deram o direito a uma enorme felicidade por vez: primeiro o homem da minha vida, e só depois a minha filha. E para não cair nesse labirinto mental, eu faço um trabalho absolutamente racional de levar o pensamento para outro extremo. Foi o próprio Marquinhos quem me ensinou a agir assim, radicalmente objetiva. “Acordou com vontade de ficar o dia na cama, coberta, escondida, pois então levante, vista sua melhor roupa e saia de casa. E se, ao contrário, acordar com euforia sem tamanho, capaz de sair cantando, fique um tantinho mais na cama, quieta, até se equilibrar”, dizia ele. Uso essa técnica.

E aí, quando encontro alguém que me pergunta como estou, penso assim: como estou considerando esse lado aqui da mente, ou segundo esse outro lado?
Tudo isso para dizer que ouvi uma música velha, acho que de Caetano Veloso, gravada por Roberto Carlos de 1971 (quando nem eu, nem o Marquinhos tínhamos nascido), que resume como estou hoje, vésperas do dia 18 de novembro, sete meses depois. Diz assim: “Meu amor! Tudo em volta está deserto, tudo certo. Tudo certo como dois e dois são cinco.” Ou, para quem é capaz de entender, estou triste, mas estou feliz.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Família que se escolhe

(O dindo: Serginho, catando gelo lá em casa, no dia 28/03/2008)
(A dinda: Sanduíche de Aline numa festa dessas lá em casa, em algum dia de 2007)


Por ora, minha idéia é dar uma educação laica à Julia, no melhor estilo “igualdade, liberdade e fraternidade” que a gente vê nos filmes. Eu, que estudei em colégio de freira e tremia de medo de inferno, acho que é possível, sim, transmitir valores espirituais sem passar perto de religiões. Mesmo assim, optamos (digo nós porque foi uma decisão tomada com o Marquinhos) que o ritual do batismo seria seguido. Primeiro, porque acho linda a cerimônia (talvez só não seja mais bonita do que a de casamento). Segundo, porque acho importante que minha filha tenha padrinhos.
Ainda não sabíamos se quem estava chegando era a Julia ou o Francisco quando tivemos essa conversa sobre batismo. Foi fundamental aquele papo, vejo agora. Foi quando o Marquinhos me convenceu que deveríamos quebrar uma tradição da família, de irmão apadrinhar o filho do outro irmão. Seu argumento foi certeiro: essa é a chance de aumentar a família. Tio já tem (ou deveria ter) intimidade suficiente para participar e servir de exemplo para o sobrinho. A escolha dos padrinhos é, então, uma forma de assumir como família pessoas que só não são família por um acaso. Em outras palavras, é família que se escolhe.

Minha Julia já está devidamente apadrinhada (embora a cerimônia só acontecerá em janeiro). E eu estou muito feliz com nossa escolha (Marquinhos, naquela conversa, já deu sinais de quem queria ver nesse papel): Serginho e Aline.

Sobre eles, tenho muito que dizer.
Conheci a Aline na redação do JT. Nos demos bem de cara, e de graça. Nunca nos largamos. Aline é leonina, ou seja, adora um palco. E eu sou uma ótima espectadora – par perfeito! Ela é linda, magra, alta, se veste bem, adora jóias, vestidos e saltos. É desbocada, fala o que pensa, e fala alto. É CDF. Tudo que faz, faz bem-feito. É estudiosa, caprichosa, incrivelmente organizada com suas coisas (guarda as calcinhas dobradinhas na gaveta!). É prática, não tem paciência para tristeza, não. Aline não desiste nunca, ou demora a desistir, mas também se desiste de alguma coisa ou de alguém é porque aquela coisa ou aquele alguém merece ser desistido. Aline é energia pura, transborda emoção. Chorou copiosamente quando assistiu “Amor à flor da pele”, de Wong Kar-Wai, mas também sabe xingar o juiz no meio da torcida do São Paulo. Aline não é de Vitória – é de Cariacica, o que dá no mesmo no sotaque capixaba. Ela adora ler, faz poesia sobre Bolsa de Valores e prepara um jambalaia de comer ajoelhado. Como diria meu sobrinho: tudo acontece na vida da Aline, e ela é muito feliz.
O Serginho, esse seguramente foi o primeiro amigo do Marquinhos em São Paulo. Os dois trabalharam juntos na Veja. O Serginho, como o Marquinhos, tem o dom de agregar. Em volta dele tem sempre uma dúzia de amigos e algumas cervejas. Ranzinza quando acorda, ele é um docinho nas madrugadas. Festeiro, gosta de música alta e muita, e sabe como ninguém alegrar uma noite. De dia, faz cara de sério e mantém na linha uma carreira brilhante. É meio japonês e meio libanês. Gosta de sushi, mas não qualquer sushi. Serginho gosta de sentar no balcão e escolher os peixes pelo nome. Até pouco tempo, o Serginho não gostava de gatos (nem de cachorros), mas ai ele conheceu uma gata, chamada Erika, que fez ele se apaixonar por tudo quanto é bicho. Agora, ele dorme com um gatinho na cabeça, outro nos pés, e uma do lado. O Serginho também adora viajar, tem medo de ficar doente, não gosta de pisar descalço na areia, e sabe ser chato com quem merece. É bonito de terno ou de chinelo. E deve ser meu único amigo de 35 anos que não tem um cabelo branco, nem é careca!
São dois incríveis exemplos de ser humano. E se minha Julia um dia me disser que quer ser igualzinha aos dindos, eu serei muito feliz!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Leitura sem tempo

Aqui uma dica de leitura boa, bonita e barata. Digo, rápida, para quem não tem tempo para ler e acaba cochilando na cama com o livro aberto na página sete. "Garota encontra garota", de Ali Smith, é um texto leve, sem muita preocupação com a lógica e com as convenções e, principalmente, muito gostoso. Mergulha nele, vale a viagem!

Resenha no:
http://diversao.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/2008/11/09/ult5668u61.jhtm

sábado, 1 de novembro de 2008

Amor de muito


(Fotos de algum dia da segunda quinzena de outubro/2008, Ju com dois meses)

Relutei um pouco antes de decidir publicar esse post por um medo que tenho de desvirtuar o blog. Não que isso seja necessariamente um problema, claro. Mas depois lembrei que o blog nasceu para dar espaço às minhas idéias particulares sobre tudo que leio. E o que mais tenho lido ultimamente são livros que de alguma forma me ajudem nessa nova face da minha vida, a de mãe.
Confesso que quando engravidei e até poucos dias antes do nascimento da minha Julia, o que me fascinava na idéia de ter filhos estava relacionado à diversão. Pensava no divertido que seria brincar com uma bonequinha de carne e osso, colocando roupinhas, amamentando, ninando no colo, ouvindo as primeiras tentativas de fala (a Ju está miando lindamente, cada dia com mais consoantes entre as vogais!). Também pensava no divertido que será brincar com a molequinha mais crescidinha, apresentar o mar, pendurar uma mochilinha nas costas dela e pegar estrada, andar de bicicleta com ela na cestinha, fazer piquenique. Tudo isso, de fato, é e vai ser muito bom. Mas não é a melhor parte.

Descobri semanas antes do nascimento da Ju e confirmo cada dia que a melhor parte de ser mãe é brincar de deus. Imagina que tenho um serzinho na minha casa que depende de mim para ser uma pessoa melhor que eu, melhor que o Marquinhos – e olha que a gente já é (era) bom pacas! Depende de mim, então, fazer da Julia uma pessoa segura, tranqüila, em paz com ela própria e com o entorno, tolerante com as diferenças, intolerante com a caretice, aberta ao que é novo, consciente de suas limitações, brigona pelo que quer e pelo que acredita. Para isso, a “criação” começou desde o minuto que a Julia saiu da minha barriga.

Foram os livros que já me ensinaram que nessa fase da vida do meu bebê nada é mais importante do que dar muito amor. Verbalizar esse amor mesmo que pareça que a pequena não entende uma só palavra do que digo. Demonstrar o quanto profunda e iluminada é nossa relação muitas vezes e com o mesmo tom de voz, esteja ela lindamente miando ou esperneando bravinha. Aliás, a Julia é do tipo que esperneia quando quer comida (é o único momento que ela chora), o que acho deveras positivo. Para mim, primeiro sinal que ela será uma pessoa equilibrada, que se aconchega com calma e manha quando recebe carinho, mas sabe gritar quando reclama o que lhe é de direito. Tá certo. A mim não resta muito mais do que desabotoar depressa a blusa e seguir meu destino.

É amor de muito.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Barcelona provinciana

Uma narrativa se faz de palavras e de não-palavras. As entrelinhas e o não dito podem ser o ponto forte de um texto. "Nada", de Carmen Laforet, é um bom exemplo disso. Um livro de 1942, agora com versão em português pela Alfaguara.
Andrea é uma jovem provinciana de 18 anos que troca os confins espanhóis pela "cidade grande", onde se depara com uma família maluca, uma sociedade tapada e os conflitos típicos dessa idade. A história se passa em Barcelona, numa época em que a cidade em nada parece esse centro moderno e reduto de malucos que é hoje. Eu gostei. Leitura fácil, rápida e muito envolvente.

Resenha no:
http://diversao.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/2008/10/27/ult5668u59.jhtm

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Lições de amizade

(A partir da esquerda: Laís, Vico, Ju e Iara)


(A partir da esquerda: Adriana e Laís; Ju e Vico; Carol e Iara; eu e Julia)

Domingo, Julia completará dois meses de vida. E não é só por causa do tamanhão da menina que parece ter passado muito mais tempo. É que tanta coisa aconteceu nesses dois meses...

Quando me lembro das primeiras semanas: eu chorando enquanto amamentava (não conseguia não chorar enquanto amamentava!), com uma sensação que faltava chão sob meus pés, achando que minha vida jamais teria rotina de novo... De uma hora para outra (mais ou menos a partir da quarta semana, mas para mim foi basicamente após a chegada da babá), tudo se assenta. E assim como a calmaria do mar que sucede a tempestade, as coisas começam a entrar nos eixos. Eu e a Ju estamos cada dia mais em sintonia, nos entendemos muito bem e quase posso dizer que estou, mais uma vez, em equilíbrio.
E ontem, como um presente antecipado de aniversário, dei uma importante lição à minha filha. Iniciei a Julia nas delícias da amizade. Foi meio por acaso. A Adriana, que teve a Laís no dia 09/08, queria me visitar. Eu propus um encontro de bebês “agostianos” e convidei a Ju, com seu Vico, que nasceu dia 16/08. Ai a Denise me ligou dizendo que sua netinha (!) Iara, filha da fofíssima Carol, que nasceu dia 20/09, já estava pronta e disposta a conhecer Julia. Fechado. Foi a senha para uma tarde super gostosa, com comilança, papo de mãe, amamentações mil e um troca-troca de fralda nunca antes visto na casa 07 da Novais Júnior.

Tudo bem que as crianças mal se deram conta uma das outras. Mas sei que sentiram a energia boa que é ter amigos. A Ju até cedeu um ombro amigo para a Iara, enquanto o Vico, todo poderoso entre as mulheres, ensaiou uma mãozinha boba na perna da Laís. Não teve choro, nem manha, ou ciúmes. Os bebês pularam de colo (todos passaram pelo colinho da Fran, a bá da Julia, e se renderam ao soninho gostoso), posaram para fotos, fizeram gracinhas. E nós, mães e avó, babamos de orgulho e brindamos à amizade! Lição para minha filha levar para toda a vida.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Um biquinho e um olhar




Tão Julia...

A minha e a de Lennon/McCartney


Half of what I say is meaningless
But I say it just to reach you, Julia
Julia, Julia, oceanchild, calls me
So I sing a song of love, Julia
Julia, seashell eyes, windy smile, calls me
So I sing a song of love, Julia
Her hair of floating sky is shimmering, glimmering,
In the sun
Julia, Julia, morning moon, touch me
So I sing a song of love, Julia
When I cannot sing my heart
I can only speak my mind, Julia
Julia, sleeping sand, silent cloud, touch me
So I sing a song of love, Julia
Hum hum hum...calls me
So I sing a song of love for Julia, Julia, Julia


Para escutar a música:

sábado, 18 de outubro de 2008

Palavras de um jogador

Algumas coisas na vida só se explicam pela sorte. Eu tenho muita sorte de ter por perto pessoas especiais, muito especiais. Uma delas é meu pequeno gigante sobrinho Caio, nove anos e uma esperteza de séculos. Ontem, ele conheceu esse blog, adorou e resolveu criar o seu próprio. Eu dei aquela força, claro, e agora estou toda orgulhosa com o espaço que ele criou. Ali, Caio dá dicas de jogos e faz rimas. Uma delas, ele fez para mim! Fiquei toda orgulhosa. Ele quer ser jogador de futebol, mas quem sabe não estamos diante do nascimento de um escritor?

Vão lá:
http://voodejogos.blogspot.com/

Agora é pra valer

(Nossas pegadas, numa praia de Fernando de Noronha, deixadas lá em dezembro de 2002)

Seis meses sem o Marquinhos e eu continuo acreditando que o tempo tudo cura. Penso nos diálogos do cinema quando, perguntado sobre a mulher, o mocinho diz que ela morreu e, em resposta ao clássico “sinto muito”, ele acrescenta: “tudo bem, isso foi há muito tempo”. Já perceberam essa resposta padrão? Pois reparem.
Parece que a morte quando fica no passado perde o peso, dói menos.

A minha dor, no entanto, é a mesma que senti no dia 18 de abril de 2008, por volta das nove da manhã, quando aquela médica (ou seria uma estudante de medicina) disse com sua cara cínica (havia um sorriso indisfarçável no rosto dela) que eles haviam feito “tudo que podiam”. Será mesmo? De modo geral, não confio em médicos.

Dali em diante, vocês sabem mais ou menos o que se seguiu: primeiro um estado de letargia, como se aquilo não fosse comigo; depois uma falta física, saudade do corpo, do cheiro, do toque (isso, ainda sinto); mais tarde, uma raiva monstra de tudo: do que chamam destino, da pena dos outros, de médicos, de deus e até do próprio Marquinhos. Ai veio a fase do medo de não dar conta, de não conseguir, de fracassar (esse vez ou outra ainda me acomete).

Agora vejo que todas essas fases serviram para entrar num novo estágio da minha vida: o do “agora é pra valer”. Estou reassumindo aos poucos minha rotina, o que inclui a minha casa, os meus prazeres e, agora, a educação e os cuidados com a minha filha. Claro, ainda tenho a ajuda da família e dos amigos – de quem precisarei para sempre. Mas sinto claramente que entrei na fase 2 da minha vida. Não tenho idéia como será essa fase, nem quem serei eu inserida nela, mas gosto de pensar que há outra vida surgindo. Surge comigo, surge com a Julia e principalmente surge com a ausência do Marcos, tão presente cada dia em mim.

Queria que o tempo voltasse, mas já que isso é impossível, que pelo menos ele passe rápido e opere em mim o que é preciso.
Saudade.

Nesse dia, uma linda homenagem feita pelo Humberto há quase seis meses, mas ainda de agora.
Na página 14:
http://publimetro.band.com.br/pdf/20080428_MetroSaoPaulo.pdf

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Heranças nossas




Herança é bom. Além de simbolizar o desapego que a gente devia carregar em todos os momentos da vida, é o mais puro exemplo de energia transformada. Eu adorei passar pra frente o incrível guarda-roupa do Marquinhos, os brinquedinhos eletrônicos dele, a coleção de Pumas. Os livros, esses eu herdei todos!

Há algum tempo, eu vivi a alegria da herança estando do outro lado. A Ju estava prestes a nascer quando chegou de surpresa lá em casa a Mariana (Scalzo) com um presentão. Ela tinha acabado de fazer em família uma enorme arrumação na biblioteca que o pai dela deixou (Nilo Scalzo, que não conheci, mas sobre quem ouvi coisas lindas!). A maior parte foi doada para uma escola e serviu como pontapé para criação de uma biblioteca pública. Outras coisas, ela separou para os amigos. Não foi uma escolha planejada. Os livros saltavam na frente da Mariana e escolhiam seus donos, segunda ela mesma me contou.

Eu tive a sorte de ganhar duas raridades que, realmente, tinham que ser minhas: a primeira edição de “Nove, Novena”, de Osman Lins, com direito a dedicatória assinada pelo autor em 1969; e um exemplar da segunda edição de “Marinheiro de primeira viagem”, também de Osman Lins (de 1980), esse com um cartão/dedicatória assinado pela mulher do Osman, a também escritora Julieta de Godoy Ladeira.
Os livros ganharam um espaço de destaque na minha pequena, porém apaixonante biblioteca. Estão no rol dos livros com passado. É energia renovada, até que virem, mais uma vez, herança e continuem suas histórias em outra praça...

terça-feira, 14 de outubro de 2008

A Índia sem vaporeto

Um dia ouvi de um amigo que a única condição para ele pôr os pés na Índia era que passassem antes um vaporeto por lá... :-) Impossível não lembrar dessa piadinha lendo "A Suíte Elefanta", de Paul Theroux (Alfaguara). Os personagens das três histórias desse livro em algum momento têm esse mesmo desejo. O agravante é que eles só se dão conta do avesso que é a vida na Índia quando já estão bem envolvidos com o país. Diria mais: quando estão afundados de Índia até o pescoço.

Resenha no:
http://diversao.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/2008/10/13/ult5668u57.jhtm

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

As palavras vão chegando


Julia, sempre Julia.
Minha menina de olhos de ressaca me leva.
Olha assim, no fundo de mim, e diz tanto sem palavras.
Mia como uma gatinha, mas sabe grunhir grave quando precisa.
Exige tão pouco, me dá tanto.
É o amor reiventado, virado pelo avesso,
transformado para sempre.
Sou eu, é o Marquinhos, é ela própria,
uma nova pessoa, completa em si, cheia de nós.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Fábulas japonesas

Mais uma resenha publicada no UOL, desta vez do ótimo "Rashômon", de Akutagawa (Hedra). Ele, um autor japonês que ajudou a redesenhar a literatura do século 20 daquele país. O livro, uma reunião de alguns dos melhores textos desse escritor que teve vida curta (cometeu o suicídio aos 35 anos), mas deixou uma obra vasta e valiosa. São fábulas deliciosas e um texto biográfico que podemos chamar de testamento suicida. Demais! Eu amei ler e, mais ainda, escrever sobre.

Confiram em:
http://diversao.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/2008/09/28/ult5668u55.jhtm

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Para mães e machões



Agora que já sou quase uma expert em amamentação, tenho me dado ao luxo de amamentar e ler ao mesmo tempo. Para essas horinhas (em média 40 minutos a cada três horas), não é qualquer livro que me serve. Em primeiro lugar, eles precisam ser leves e aqui não me refiro à intensidade do enredo, não. É de peso mesmo. Imagine que com uma mão eu seguro um bebê de quatro quilos. Não dá para segurar uma bíblia só com uma mão, certo?

Também tenho gostado de ler contos ou narrativas curtas, porque assim consigo um ponto final em cada mamada, o que me dá a sensação de estar aproveitando muito bem o tempo. Enfim, isso tudo reforça que livro é objeto, sim.

Nessa linha veio a calhar o que ganhei do meu amigo Bruno Manso, autor de “Homem X” (Record). Faz um tempo, ele comentou que tinha lido uma autora de agora, chamada Adriana Lunardi, e que ao contrário de todas as suas expectativas, tinha gostado bastante dos contos dela (vale dizer que o Bruno até bem pouco tempo achava que romance era coisa de mulher!). O legal é que ele quis dividir comigo suas impressões e me deu “Vésperas” (Rocco), segundo livro de Adriana.
Segundo diz na orelha do livro, embora venha sendo elogiada por sua produção, essa é mais uma autora que não vive de literatura. Diz lá que ela é roteirista de um programa de TV nas horas vagas.
O livro, de fato, foi muito bem bolado, passa a sensação de algo pensando, trabalhado com cuidado e muito suor – coisa boa de ler. São nove contos e um tema: a morte de grandes escritoras. Todas mulheres, todas brilhantes. Virgínia Woolf, Dorothy Parker, Ana Cristina César, Clarice Lispector... E por ai vai. Claro, comecei por Clarice, depois li Ana Cristina César, depois Virgínia e assim segui, dando uma ordem minha, ignorando solenemente o sumário. Eu adoro livros que dão chance para o leitor interferir a esse ponto!

O conto que mais gostei é “Ana C.” É denso, é presunçoso (e isso aqui é uma qualidade) e muito bem escrito. Ali está o encontro de um doente terminal, que assisti aos seus últimos minutos de vida, com a poeta Ana Cristina César, que cometeu o suicídio em 1989 se atirando da janela da casa dos pais, quando tinha 31 anos. O texto tem um tempo muito interessante e, embora intenso, não chega a ser aflitivo. É evidente, minhas memórias dos instantes sofridos dentro da ambulância que cortava São Paulo numa manhã de sexta e no hospital, enquanto médicos tentavam reanimar o Marquinhos, voltaram em enxurrada. Mesmo assim, e estranhamente, me senti muito em paz com a leitura.

Também gostei muito de “Ginny”, um relato frame a frame do suicídio de Virgínia Woolf (nota-se meu fascínio por histórias de suicidas!). Imagine se fosse possível um fã ter testemunhado cada passo da escritora inglesa antes de afogar-se no rio Ouse, em 1941. É uma narrativa apaixonada, que não tende ao desequilíbrio, não apela à loucura e consegue ser bem instigante.

É isso. “Vésperas”, de Adriana Lunardi, é uma boa leitura para mulheres que amamentam como eu ou homens que acham que romance é coisa de mulher, como o Bruno.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Um mês com ela



Parece que foi ontem, mas já faz um mês que minha Julia fez sua estréia nesse mundinho nosso. É fato, não há tanto para oferecer de bom aqui fora do barrigão, mesmo assim, e sabe-se lá a razão, a vida vale à pena. E eu sou a melhor prova disso.

E como chegar a um mês sem ceder à tentação de fazer um balanço?
Posso dizer que aprendi muitas coisas com (e sobre) a Ju nesse tempo. Por exemplo:
- Banho pra ela tem que ter água a 35 graus, nem mais nem menos. Ah, e ela adora tomar banho. Não reclama e se alegra toda quando coloco seus pezinhos na água;
- Minha Julia faz parte do chamado grupo de bebês sugadores. Ou seja, ela precisa sugar o tempo todo, e já dava provas disso desde a barriga. Nas duas últimas ultras, ela apareceu chupando o dorso da mão em uma, e o antebraço na outra. E eu que dizia que filha minha não ia ter chupeta, pago pela boca e me desespero se não tem uma por perto;
- Por gostar de chupar sem parar, ela tem gases, se contorce toda, fica vermelha. Nessas horas, além das gotinhas que a médica homeopata receitou, ela precisa de massagem na barriga e exercício com as perninhas;
- Minha Ju adora movimentar o corpo. Ela gosta de ser tocada, esticada, fica quietinha quando fazemos exercício ou quando está no provador, enquanto trocamos sua roupa. Adora que alguém segure suas mãozinhas, estique suas perninhas... Acho que vai adorar as aulas de ioga;
- Ela é atenta, tem ótima audição, e é bem curiosa (será que vem uma jornalista por ai?). Fita seus olhinhos castanhos no que lhe chama atenção. Às vezes é o nada, ou alguma coisa que só ela enxerga. Outras (muitas) vezes é o meu rosto, que observa com tranqüilidade e atenção, como se quisesse decorar cada detalhe.

Outras coisas, tenho aprendido na prática e nos livros – sempre os livros! A minha bíblia do momento ganhei da querida Anne Dias e chama “O que esperar do primeiro ano” (Editora Record). Esse livro é continuação do também ótimo “O que esperar quando se está esperando”, que li durante a gravidez (empréstimo mais que providencial da Fabi Correa).
Mas voltemos ao livro do primeiro ano. Nele, até agora, eu encontrei simplesmente tudo que precisei. No meio da madrugada, a Ju esperta que só ela, eu me pergunto se cocô amarelo é sinal de saúde. Vou lá e tem um guia com as cores que um cocô de bebê pode ter e o significado de cada uma. Outra hora bate aquele desespero com um choro fora de hora da pequena. Corro lá e mais um guia com o que quer dizer cada tipo de choro. Não é o máximo?

Enfim, essa é minha dica para quem pensa em se aventurar na vida de mãe e, como eu, não tem a menor idéia do que isso significa. Esse livro ajuda um bocado - olha ai, Dani DE Lacerda, uma boa dica para ir preparando o espírito... Aproveita e vai se desprendendo do hábito das noites de sono contínuo, se prepara para ver os peitos crescerem que nem essas tchutchucas que põem silicone (infelizmente, eu acho peito grande vulgar!) e vai comprando roupas que abrem fácil na frente. Você vai precisar!
:-)

p.s.: claro, nem tudo são flores e eu dou minhas atrapalhadas. Ontem, por exemplo, pinguei as gotinhas para gases da Julia no meu nariz – enganado, claro! Isso me rendeu uma dor de cabeça e uma sensação estranha de bolhas estourando no ouvido. Ainda bem que não foi o contrário e eu não coloquei nela as minhas gotinhas para estimular a produção de leite. Já imaginou? Credo!

sábado, 20 de setembro de 2008

O riso dela



Diz aí se ela não está sorrindo...

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Meus dias


Mama, troca fralda, dorme, acorda, mama, troca fralda, dorme, acorda...

Os dias da Julia são assim, e os meus seguem o mesmo ritmo. Não reclamo. Como diz uma amiga: estou ganhando para isso, ne?
E fora que nada pode dar mais prazer do que aquele momento sublime, pós-mamada, quando ela se joga no meu colo, quase me abraçando, com tanta confiança que meu corpo é continuação do dela. Ainda somos uma, aprendendo a ser duas.
Também amo quando ela ri para mim (sim, já sei, bebês dessa idade não sabem rir, mas que parece, parece). E fico boba quando, na hora do banho, ela titubeia entre o prazer da água morna e a imensidão que deve parecer aquela banheira e, para se sentir segura, aperta minha roupa com sua mãozinha, com força.
Eu me sinto importante, essencial e volto a acreditar no futuro.
Julia é linda, irresistível e eu já estou completamente apaixonada por ela.

Ah, e ainda encontro tempo para escrever minhas coisinhas, ler um bocado e escrever resenhas vez ou outra. No link, mais uma publicada no UOL essa semana. Prometo em breve publicar uma exclusiva para o blog. Tenho que escrever um post sobre os livros que ensinam a ser mãe e outro sobre "Carta a D.", o encantador livro/carta de André Gorz. Vou devagar, mas vou.

Beijo,

http://diversao.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/2008/09/14/ult5668u53.jhtm


domingo, 7 de setembro de 2008

Viagem literária

Em se tratando de mundo virtual, essa resenha já está até velha. Foi publicada no dia primeiro. A dica fica, então, para os que não deram aquela espiada rápida na página de resenhas do UOL.
"Dias na Birmânia" é o primeiro romance de George Orwell. Foi escrito em 1934 e é a prova de que o talento desse indiano/inglês vem de muito tempo. Um romance que te transporta, literalmente, para a antiga Birmânia, hoje (pouco) conhecida como Mianmar. Esse livro me fez viajar tanto que até me assustava quando me dava conta que estava cercada de brasileiros, sabe assim?
Além disso, é uma narrativa cheia de ótimas metáforas - ponto chave para tornar um livro numa grande obra.

A resenha:
http://diversao.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/2008/09/01/ult5668u51.jhtm

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Julia no jornal

Eu continuo sem palavras, mas meu amigo Humberto Werneck as têm de sobra.
Que sorte a minha tê-lo por perto!

Vai lá (na página 14):
http://metropoint.metro.lu/20080825_MetroSaoPaulo.pdf

p.s.: aproveito para agradecer os mil afagos, beijinhos, flores e presentes, palavras escritas e faladas, brindes e mais brindes que ganhamos esses dias. Foi ótimo receber a Julia cercada pelo carinho da família e dos amigos. Agora, estamos numa fase "se conhecendo" e assim que as coisas ganharem ritmo, abriremos para visitas.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Here comes the sun

Era assim no dia 25/08/2008
Assim no dia 26/08/2008
E assim ontem, dia 02/09/2008


Meu sol nasceu... E eu não tenho palavras.

Apenas alguns números (e um nome):
- Foi no dia 26/08/2008, às 00h20.
- Chegou com 3,710 kg e 51 cm (como coube!).
- Nasceu de cesárea, depois de 9 horas tentando um parto normal.
- Seu nome é Julia.

p.s.: ah, sim, muita gente diz que ela é mesmo a cara do pai.



segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A vida por um pêlo... de gato


A dica de leitura da semana é “Amor em Minúscula”, do espanhol Francesc Miralles. Trata-se de um livrinho gostoso sobre como uma vida pode ser profundamente afetada quando nos deixamos levar pelas circunstâncias. Neste caso, o autor fala do encontro de um professor de filologia alemã entediado em sua meia-idade com um serelepe gatinho. Coisa meiga, mas também repleta de pontos de reflexão.

Para mim, esse livro agradou em especial pelo tour por Barcelona que o autor nos permite fazer mentalmente. Não é um livro de viagem, mas as longas caminhadas do narrador pela cidade são descritas com muitos detalhes – um presente para quem é apaixonada pela Catalunha como eu e repetiu aqueles percursos descritos um tanto de vezes. Se perder em Barcelona era nosso (meu e do Marquinhos) passa-tempo preferido no um ano e meio que habitamos o Eixample Derecho. Embora, pelo tamanho da cidade, depois de alguns meses já não dava para se perder, assim, literalmente.

Enfim, dedico essa resenha a alguns queridos e suas doces relações com gatos:
- Corina: por causa dela, me apaixonei por gatos. Ela morava num apartamento em BCN com um taiwanês chamado Pei que tinha um gato gordo, peludo, parecia um leão. Pois bem, numa festa, esse gato deu uma volta na sala cheia de gente, cheirando pé por pé, até parar na minha frente e, sem nenhuma cerimônia, subir no meu colo. Arrematou meu coração e deixou a Corina vermelha de ciúmes! Ainda hoje admiro profundamente os gatos, embora não tenha vontade de criá-los. Para ter, ainda gosto mais de cachorro!
- Txell, e sua gata bolota que já foi a mais perigosa bichana de DF, México. Vai encarar? Aliás, no livro tem uma personagem que chama Meritxell.
- Erika, a encantadora de gatos, que conseguiu quebrar o gelo do coração do Serginho e fazê-lo se apaixonar não por um, mas por três gatinhos fofos.
- Lets, que é apaixonada pelo layout dos gatos. Tem inúmeros gatinhos desenhados, pintados, moldados, mas nenhum em carne e pêlos.
- Nigro, que espirra sem parar quando chega perto de um... Tão bonitinho!

- Marquinhos, que odiava gatos, ou dizia que odiava, mas parecia tanto com um...

Leiam com seus próprios olhos:


Alegria X morte

Ontem ouvi um filósofo falar na TV sobre "alegria X morte". Ele explicava a relação possível entre as duas coisas e como tirar uma da outra. Partia da leitura de Spinoza quando dizia que para ser alegre é preciso um tanto de loucura. Não a loucura psiquiátrica o que, nesse caso, pode-se tomar como exemplo a atitude insana de agir como se a morte não existisse, e continuar contando com a presença física da pessoa que se foi. Essa loucura faz mal e exige tratamento.

O tal filósofo falava da loucura filosófica, a que consiste em admitir os devaneios como parte da existência. Enfim, aceitar outra forma de existência possível, que não a da matéria. Lembrei de quando inaugurei esse blog anunciando minha proposta de vida pela ficção. O real e a invenção como partes da mesma coisa, dessa coisa que chamamos vida.

Há técnicas para driblar o sofrimento e encontrar alegria na morte. Uma delas consiste em, ao invés de cultuar a ausência, a partida, brindar a memória. Substituir a lamentação dolorosa (e aqui lembro muito do Marquinhos, que rechaçava toda e qualquer lamentação!) pela esperança da continuação. O encanto pelo que fica (de aprendizado, de exemplo, de energia) e não pelo que se perde.

Penso em tudo isso justamente quando se completam quatro meses da morte repentina e dolorosa (para nós que ficamos) do Marquinhos. E concluo que fiz minha escolha: quero a alegria de cultuar a memória, não o sofrimento de contar o que perdi. Marquinhos me deu muitas coisas, infinitas, irrepreensíveis, e são essas coisas que me interessam!

p.s.: no sábado, dia 09/08, nasceu a Laís, filha do Nuno e da Adri. Nesse sábado, dia 16/08 (no mesmo dia da Madonna e do eclipse da lua), nasceu Vicente, da Ju e do Rodrigo. Algo me diz, essa semana nasce a Julia, minha e do Marquinhos. E assim a vida se renova, sem lamentações, com alegria e um pouco de loucura, porque ninguém é de ferro.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Hedonismo literário

Uma vez o Marquinhos me disse, no meio de um de nossos intermináveis debates sobre arte, que eu precisa valorizar mais os livros despretensiosos. Acho que naquele dia ele citou alguém, não lembro quem, que disse dias antes numa entrevista que faltavam escritores leves, que não buscam lançar uma obra-prima, nem repetir a fórmula dos clássicos. Que escrevem para divertir, para aliviar as tensões ou só porque não há outra alternativa que não escrever. E lançam, assim, livros sem peso, do tipo que devoramos numa sentada e que podem até ser esquecidos na semana seguinte, mas que proporcionam momentos agradáveis no presente. Hedonismo literário - fiquei com isso na cabeça.

Durante os anos de mestrado, impossível experimentar esse tipo de leitura. Mas agora que estou lendo muitos lançamentos tento buscar esses livros leves. É nessa esfera que vem a dica da semana: "Ler, Viver e Amar em Los Angeles", estréia das americanas Jennifer Kaufman e Karen Mack. É um livro sobre uma leitora, um tema tão antigo quanto o próprio romance moderno e que sempre dá jogo. Li rapidinho (300 páginas em duas noites!) e curti.

Go, go, go:
http://diversao.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/2008/08/04/ult5668u46.jhtm

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Contas

(Desenho da espanhola Elena Odriozola)

Hoje, 36 semanas de Julia + eu.
Hoje, 15 semanas de eu - Marquinhos.
Essa conta não fecha. Ou fecha?

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O sempre no nunca


É preciso vencer alguns preconceitos para experimentar a beleza de “A elegância do ouriço”, segundo romance da francesa Muriel Barbery, nascida em Bayeux, mas residente na Normandia (tradução de Rosa Freire d’Aguiar, Companhia das Letras, 2008). O primeiro preconceito a ser vencido, pelo menos de minha parte, é contra o estigma dos best sellers. Sei que estar entre os mais vendidos na França (esse livro liderou a lista de lá em 2006 e vendeu 850 mil exemplares) não é a mesma coisa de ser best seller nos Estados Unidos ou no Brasil – e ai vocês podem dizer: mas esse é mais um preconceito! É verdade, mas já me decepcionei tanto com o que a massa costuma achar ótimo que evito os best sellers, mesmo.

O segundo preconceito a se vencer é mais secreto, contra aquela íntima impaciência com os livros que demoram a pegar. O vocabulário espanhol tem a palavra certa: impaciência com os livros que não “enganchan”, não viciam logo de cara. Em alguns trechos, “A elegância do ouriço” parece dar voltas, alongar o caminho, o tornando mais sinuoso, e retardando a chegada. No entanto, um conselho: insistam, valerá a pena.

De modo geral, o enredo traz o dia a dia em um classudo edifício de Paris, onde uma vizinhança burguesa e pretensiosa é constantemente avaliada e alfinetada em dois diários escritos simultaneamente, por moradoras bem diferentes. Uma é a concierge de meia-idade, que lê Proust, ouve música clássica e divaga sobre conceitos de filosofia e de teoria literária. A outra é uma pré-adolescente infeliz, assustadoramente inteligente para sua idade e que planeja o próprio suicídio quando completar 13 anos, ou seja, dali a seis meses. As duas podiam perfeitamente ser mãe e filha, mas seus destinos só começam a se cruzar de fato com a chegada de um novo morador ao edifício, um milionário japonês de sorriso farto e muita sensibilidade.

Há várias questões em pauta no livro de Muriel, que além de escritora é professora de filosofia. O abismo social parisiense, que em muito lembra o antiquado sistema de castas; o papel da arte (e, mais precisamente, da literatura) enquanto sustentação dos desejos mais vitais do homem; e o caráter insuportável da lucidez são algumas. Mas, acima de todas essas discussões, está uma temática muito sedutora: “A elegância do ouriço” é, sobretudo, um livro sobre uma mulher.

Renée, ou a sra Michel, é a personagem forte da trama. Primeiro pela forma peculiar com que constrói sua fortaleza particular. Ela acredita que fingir ser uma concierge de formação cultural rasteira, como seria qualquer outra de Paris ou do mundo, garante a invisibilidade que lhe mantém protegida há 27 anos no mesmo posto de trabalho. Como um ouriço, Renée se protege crivada de espinhos e prefere passar-se por medíocre a ser desmascarada pela mente brilhante que é.

Pessoalmente, esse livro me levou ao encontro de emoções fortíssimas. Fez com que relembrasse os últimos momentos de vida do Marquinhos; me fez ver, mais uma vez, que o importante é o hoje e que trauma nenhum pode ser freio e que a vida, essa coisa que a gente dá tanto valor, é uma sucessão de dias, meses e anos. E que se a gente não fizer desse tempo algo prazeroso, nem vale a pena. Porque não existe gran finale. É agora ou nunca. A eternidade é efêmera e viver é buscar o sempre no nunca.

Sugestão: a trilha sonora desse livro, para mim, claro, é “Nicest thing”, de Kate Nash. Da letra, misturada ao livro, fiz um versinho:
“Tomara que eu tenha sido a última coisa na sua mente, quando você adormeceu.
Torço tanto para que tenha sido o meu rosto a última imagem na sua mente, congelada, eternizada... um sempre no nunca.” (MB)

p.s.: Mais uma vez, devo essa leitura de prazer à minha amiga Nina, que recebeu a indicação da mãe e repassou para mim. Bela dica, belo empréstimo!

Recortes:
“Fora o amor, a amizade e a beleza da Arte, não vejo muitas outras coisas capazes de alimentar a vida humana.” (pag.37)

“(...) Porque o que é bonito é o que captamos enquanto passa. É a configuração efêmera das coisas no momento em que vemos ao mesmo tempo a beleza e a morte.
Ai, ai, ai, pensei, será que isso quer dizer que é assim que temos de viver a vida? Sempre em equilíbrio entre a beleza e a morte, o movimento e seu desaparecimento?
Estar vivo talvez seja isto: espreitar os instantes que morrem.” (pag. 293)

“Pela primeira vez na vida senti o significado da palavra nunca. Bem, é terrível. A gente pronuncia essa palavra cem vezes por dia, mas não sabe o que diz antes de ter sido confrontado com um verdadeiro ‘nunca mais’”. (pag.348)

A música

Nicest Thing
(Kate Nash)

Dá para ouvir no:
http://letras.terra.com.br/kate-nash/988784/

All I know is that you're so nice
You're the nicest thing I've seen
I wish that we could give it a go
See if we could be something

I wish I was your favorite girl
I wish you thought I was the reason you are in the world
I wish my smile was your favorite kind of smile
I wish the way that I dress was your favourite kind of style
I wish you couldn't figure me out
But you'd always wanna know what I was about

I wish you'd hold my hand when I was upset
I wish you'd never forget the look on my face when we first met
I wish you had a favourite beauty spot that you loved secretly
'Cos it was on a hidden bit that nobody else could see

Basically, I wish that you loved me
I wish that you needed me
I wish that you knew when I said two sugars, actually I meant three
I wish that without me your heart would break
I wish that without me you'd be spending the rest of your nights awake
I wish that without me you couldn't eat
I wish I was the last thing on your mind before you went to sleep

All I know is that you're the nicest thing I've ever seen
And I wish we could see if we could be something
And I wish we could see if we could be something

segunda-feira, 21 de julho de 2008

O fim de Nathan Zuckerman


(As várias faces de Nathan, fotografadas numa livraria em Amsterdam)

Nesta semana no UOL, resenha do ótimo “Fantasma sai de cena”, de Philip Roth. Gostei de ler esse livro por alguns motivos em especial. Primeiro porque acho mesmo que Roth é um grande escritor de nosso tempo. Segundo porque, tudo indica, essa é a despedida do alter ego Nathan Zuckerman, um personagem tão interessante quanto curioso. E, terceiro, porque Roth era um dos autores preferidos do Marquinhos. Acho que ele leu todos os livros do Nathan traduzidos ao português. Nas nossas férias, em Amsterdam, “Exit ghost” já estava à venda. Tomamos um susto com a idéia de que era o fim de Nathan, mas não compramos o livro. A mala já estava pesada demais e, sei lá, não quisemos comprar. Ele não leu, mas eu li por ele.
Go, go, go:
http://diversao.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/2008/07/20/ult5668u44.jhtm

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Velhice interrompida


Por muito tempo, achei que conseguia reconhecer os que viverão muito dos que morrerão cedo. Pensava: os primeiros não têm pressa, vivem com uma tranqüilidade embutida nos pequenos gestos, passam paz, parecem entender que tudo ter seu tempo não significa que o tempo é sempre agora. Já os de morte marcada têm pressa, correm, fogem, tropeçam, perdem o fôlego. São bons de serem observados, têm a intensidade inscrita no olhar, farejam o caminho seguro tão fácil que quase nunca erram a direção. Não têm tempo para voltar atrás.

Como bom geminiano, Marquinhos não era inteiramente um, nem outro. Mas se eu tivesse que escolher quem seria ele, tendo a enxergá-lo no primeiro. Ele era intenso, sim, mas não tropeçava nos próprios passos. Gostava de ficar quieto, pensando. Era capaz de passar horas do seu fim de semana deitado no sofá, pensando. Ou, como gostava de dizer, fazendo nada. Aliás, não fazer nada era algo que ele exercitava com muita disciplina. Ele precisava, depois de uma semana de muito trabalho mental, não fazer nada a sério. Eu não faço nada lendo, vendo TV, brincando com os cachorros, caminhando no parque – é o máximo que consigo de nada em minha vida. Com ele era diferente.

O Marquinhos era muito objetivo, incrivelmente racional, embora, em seus últimos meses de vida, ele me confidenciou que começava a acreditar que, de fato, o lado emocional é mais forte do que o racional no ser humano. Isso foi uma quebra de paradigma, motivada e muito pelas aulas e leituras sobre psicologia social, do MBA que estava fazendo. Mas, enfim, mesmo tendendo um pouco mais ao emocional, ele continuava sendo um ser racional. Não perdia tempo com lamúrias, focava no que realmente lhe interessava e tinha um poder incrível de abstrair. Eu, pisciana com ascendente em Peixes, não conseguia acompanhá-lo.

Ele tinha pressa, sim, e fez tudo muito cedo na vida. Quando ainda era estagiário fez uma matéria bombástica que lhe rendeu seguidas ameaças de morte e uma passagem só de ida para bem longe do Recife. Para nunca mais voltar. Com 17 anos, escrevia cartas de amor em que dizia, sem nenhum pudor de juventude, que eu era a mulher da vida dele. Assim o foi. Mas, ao mesmo tempo, era um homem que parecia dispor de todo tempo do mundo. Sempre abria espaço para ouvir quem quer que fosse. E achava mesmo que podia aprender com todo mundo, do chefe turrão ao taxista que se abria como um velho amigo, talvez por reconhecer nele alguém que sabia das coisas.

Eu via o Marquinhos velho, conseguia enxergá-lo aos 70 anos, com os bolsos da calça cheios de balinhas (como bem descreveu um dia o Michel) e comprimidos para dor de cabeça, cabelos cinza, talvez uma bengala fazendo par com chapéu, não por necessidade, mas por charme. Eu via o Marquinhos aposentado, ganhando para não fazer nada, escrevendo livros e cercado de cachorros (gatos, não!). Eu via o Marquinhos enrolando um cigarro de palha aos 70 e poucos, fazendo pouco caso para as recomendações médicas e se deliciando com a gordura da picanha, assada por ele mesmo no forno a lenha. Eu podia vê-lo em uma de suas intermináveis festas, com nossos amigos, alguns grisalhos, muitos carecas, música eletrônica alta na vitrola, e nossos filhos resmungando que aquilo era música de velho. Era tão nítida a imagem dele velhinho, brigão, cheio de opinião, sempre disposto a mudar o pensamento do outro e tão seguro do seu próprio.

Quem diria, não vai ser assim.
Nesta sexta, são três meses que essa história mudou de rumo.


Ócio
(Por Marcos Gusmão)

Se faço, nada termino
Se começo, descanso
Se sigo, descompasso
Um passo, destino.

Sol, suspiro, resisto
Se me entrego, faleço
Respiro, respiro
Ouço, esqueço...

Não me aborreço
Se sigo, persigo
Me inquieto, insisto
Um passo, desatino.

Descanso, faleço
Termino suspenso.
Se vôo, imagino
Se fico, tropeço.

Miro disforme, d’ouro ébrio,
Enquanto nada me acomoda na noite.

Aqui, suspiro, entrego,
enquanto de novo
o sol salta sobre a casa.

Bebo, sacio,
Entorpeço.
Vinho, outra taça.
Um cão dorme tranqüilo.

Se sigo, reviro entorno,
Seco festejo, me acomodo
na segunda-feira.

Cortejo, então, um céu sem nuvens
Balbucio qualquer palavra
Numa rua que me despreza.

Em quatro paredes sufoco
O dia que se finda numa vida breve, conforto.

Descubro, a pedra se faz ao caminhar.
Ao sair da toca, incito a besta.
Não corro, confio.

O que fazem ali os animais?
Brincam ou pelejam,
enquanto mecânico termino?

Da casa, às paredes lanço meu olhar mecânico.
Descrente, acalma.

Do interior, música
Marcha, melancolia
Um vento, gemido num sonho.

Da vida, o sábado
Quando meu corpo despreza
A rua que é só rua.

Dois cães adormecem alimentados
Sempre casa, cães e sábados.

(escrito num sábado entre finais de fevereiro e meados de março de 2008)

terça-feira, 8 de julho de 2008

Um filme, um livro



Quem como eu amou assistir “Eu, você e todos nós”, filme de 2005 da norte-americana Miranda July (disponível em DVD), vai amar mais ainda ler “É claro que você sabe do que estou falando” (editora Agir). O filme é tão simples e tão bom, como o livro. Enfim, é tão rara essa chance de continuar um filme num livro, ou um livro num filme (como preferirem) que não para deixar essa escapar. Resenha do livro em:


sábado, 5 de julho de 2008

One day at a time

(Benicio Del Toro e Halle Barry em cena de "Coisas que perdemos pelo caminho")


O título me prendeu: “Coisas que perdemos pelo caminho”, filme dirigido por Susanne Bier, com Halle Barry e Benicio Del Toro no elenco. Entrou na cestinha de DVDs do final de semana sem que eu precisasse ler a resenha.

No filme, a personagem de Halle Berry perde o marido, numa morte trágica e repentina. O personagem de Benicio era o melhor amigo do marido morto e vive ele próprio uma vida de perdas, desde que trocou a carreira de advogado pela sobrevida de um viciado em heroína. É do encontro dos dois, e de como cada um dá suporte à recuperação do outro, que trata o filme.

Corajosa essa relação entre o recomeço de um viciado que luta contra seu particular impulso à autodestruição e o recomeço de uma mulher que perdeu o homem de sua vida e se enxerga absolutamente sozinha, ao lado dos dois filhos pequenos. Tive medo de achar forçado demais, e seria forçado demais se não fosse a forma delicada em que esse vínculo foi estabelecido.

De fato, há semelhanças. São dois personagens que perderam, muito, de seus eus. No começo do filme, nenhum dos dois acredita possível esse recomeço. Ela tenta preencher os espaços vazios como pode, ao invés de redimensioná-los. Ele custa a acreditar que é capaz de mudar o rumo e age como se cada dia longe da droga fosse mais um dia antes da próxima recaída. Típico comportamento autodestrutivo. No meio dos dois, a delicadeza infantil diante da tragédia – inocente e sem rodeios.

Ultimamente, não por acaso, perdas da vida rondam meu pensamento. Lembro da minha primeira decepção amorosa (ou, ao menos, o que uma garota de 14 anos chama de amorosa); da primeira amizade partida; da primeira pessoa que desisti; do primeiro amigo que morreu; da primeira vez que duvidei da sinceridade de alguém. Perder é estranho. Marca, fere, machuca. A gente não esquece. Pode até esquecer o que ganhou, mas dificilmente apaga o que perdeu.

E aqui está a dúvida que depois de assistir esse filme persiste: esses momentos marcam por que neles perdemos um pedaço ou, ao contrário, por que ganhamos algo?

p.s.: Claro, tem também as perdas materiais que, no filme, são lembradas com uma carga enorme de clichê, com a velha história do incêndio na garagem (o título original do filme é “Things we lost in the fire”). As minhas perdas materiais são incontáveis. Relógio, óculos, bolsas, sapatos, perco tudo, o tempo inteiro. Uma malha azul que sumiu na mesma época que sentimos falta de uma malha também azul do Marquinhos. Sumiram as duas, para sempre. Mas também dou muita coisa. Tanto que nunca sei, quando sinto falto de algo, se perdi ou dei. São objetos e eles voltam, sempre voltam.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Ausência




“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.”
Carlos Drummond de Andrade

E um dia assim será para mim... Por enquanto, ainda é falta e dói.

P.S.: recebi ontem esse Drummond do meu amigo amado Humberto, que está de parabéns pelo sucesso do seu "O santo sujo, a vida de Jaime Ovalle" (Cosac Naify), que será lançado nesta quinta, na Flip. Se não fosse meu barrigão, encararia a serra só para vê-lo brilhar! Parabéns, querido, você merece esse e outros aplausos!

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Guimarães para os sentidos


Post curtinho, mas imprescindível. Hoje, Guimarães Rosa completaria 100 anos. E eu sou completamente encantada por seu legado. Acho mesmo que de sua pena saíram alguns dos textos mais incríveis da literatura universal. O que Guimarães Rosa conseguiu fazer, em termos de performance com a palavra, não conheço que tenha conseguido melhor, muito menos igual. E como esse é um blog de dicas de leitura, indico um conto específico: “Meu tio o Iauaretê”, publicado na revista Senhor em março de 1961 e facilmente localizável na internet. Talvez você tenha tido a sorte (eu não tive) de assistir a performance desse texto, feita pelo inesquecível Paulo Autran, se não me engano em um dos teatros do Sesc em São Paulo.

O texto apresenta um narrador que é um profundo conhecedor dos hábitos das onças, e os descreve com tantos detalhes capaz de despertar no leitor sentidos que vão além da audição e da visão. Sim, lendo sentimos o cheiro do sangue, o frio na espinha comum a quem pressente o perigo. É pura magia. E ainda tem o efeito álcool, que contribui na perda dos sentidos lógicos do narrador, até o desfecho mais que singular, surpreendente, como um ataque mortal do bicho-homem. Enfim, vale a leitura. Mas nem adianta ler correndo, não. Esse é para ler com calma, em silêncio, sentindo o bafo do bicho.
Bom, é esse o meu Guimarães preferido do momento. E o seu?
p.s.: dedico esse post a Gisele e Sandro, colegas de mestrado que muito me ensinaram de Guimarães. Saudades de nossos papos sobre literatura no café da PUC!