quarta-feira, 4 de junho de 2008

Sonho de consumo



(Divulgação - Imagem de Clarice menina, em Recife, do livro "Clarice fotobiografia", organizado por Nadia Batella Gotlib)


Ainda não comprei, mas dei uma boa folheada em “Clarice fotobiografia”, organizado por Nádia Barella Gotlib (Edusp e Imprensa Oficial, 2008: São Paulo. 652 páginas. R$ 90, mas a Cultura está vendendo por R$ 72 em Sampa). Que lindo! Sonho de consumo desde já. É a pesquisa fotobiográfica mais bacana que já vi de Clarice Lispector. Um presente para nós, discípulos e admiradores. A parte que mais me impressionou é, sem dúvida, a que apresenta as anotações premonitórias de morte, que Clarice fez no rascunho de “Um dia a menos”, um dos seus últimos contos, escrito em 1977 (pág. 445). Escreveu Clarice, em letra apressada: “Desconfio que a morte vem. Morte?”

Impressiona porque o meu Marquinhos também fez anotações premonitórias da morte. Ele me escreveu uma carta de despedida, dois meses antes de morrer, mas que só encontrei cinco dias após sua morte – minha mais valiosa herança. Acho mesmo (concordando com a minha terapeuta Angélica e com nossa professora de ioga Ana) que as pessoas sensíveis, que vivem intensamente, são sim capazes de sentir a morte se avizinhando. Mas é preciso ser mesmo muito especial para, além de senti-la, expressá-la em palavras. Salve, salve!

Clarice pra alma

(Francisco Alves Editora, 1995: Rio de Janeiro.)


A morte me reaproximou de Clarice Lispector. Aliás, Clarice vez ou outra volta em mim. Gosto de reler seus livros em momentos-chave. Impossível relacionar esses momentos entre si porque são soltos: alegres, tristes, de apreensão, de tranqüilidade, de inspiração ou vazios.

Quando pensei que livro seria capaz de me preencher nesse momento absolutamente vazio, lembrei de "A maçã no escuro" (Francisco Alves Editora, 1995: Rio de Janeiro. 321 páginas). Pensei nele porque o via como uma desafiante releitura. A primeira vez que li, confesso, não cheguei a gostar. Foi em 2003, tinha acabado de voltar pro Brasil e estava numa onda “quero ler tudo da Clarice”. Esse livro me travou. Provavelmente pelo personagem masculino, Martim. Naquela época, Clarice era para mim essencialmente uma descobridora de almas femininas e não consegui aceitar muito bem aquele homem ali, em destaque. Mesmo assim, guardei muito respeito por esse livro e sua história. Das primeiras anotações ao ponto final, Clarice se ocupou dez anos em escrevê-lo - a primeira publicação foi em 1961.

Dessa vez, foi tudo diferente e até me arrisco a dizer que “A maçã no escuro” entrou na lista dos meus preferidos de Clarice, junto com “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, “Paixão segundo GH” e “A bela e a fera”. Mais uma prova que livro tem hora, lugar e companhia, mesmo.

Em “A maçã no escuro”, Martim empreende uma viagem de redescoberta, tendo como ponto de partida uma fuga e como ponto de chegada, ele próprio. Parte de um estado de letargia (a construção da imagem dele em longa caminhada de olhos fechados é fascinante!) e segue pela recriação de si mesmo a partir do encontro com os elementos da natureza. Ele é um personagem masculino, é verdade, mas sua figura representa a gênese humana, reescrita a partir da busca do elevado nos sentimentos mais rasteiros, nos desejos menos nobres de todo e qualquer homem (aqui não enquanto gênero).

Seu encontro com três mulheres (Vitória, a poderosa e autoritária dona da fazenda onde ele trabalha duro em troca de hospedagem; Ermelinda, a viúva romântica e iludida com a presença do homem; e a mulata empregada da fazenda) incorpora a seus dias a tensão das relações humanas. Martim havia deixado para trás essas relações quando, imaginando ter matado a própria mulher, inicia sua fuga.

E assim o personagem segue um percurso de fuga que não idealiza o absoluto, por sabê-lo inexistente. No prefácio do livro, Lucia Helena usa uma imagem exemplar desse estado de equilíbrio instável de Martim: a de Sísifo, “que devia sempre reiniciar a subida do monte, empurrando sua pedra. Quando chegava ao topo, um deus o soprava novamente para baixo” (pág. 02). Como um Sísifo, Martim empurra sua pedra, mesmo consciente que o esforço não o levará à plenitude, e que o fim será sempre um começo.

Não há salvação. Caminhamos em círculos, se essa imagem for mais clara. Somos seres frágeis, limitados e precários – e é do equilíbrio desses três traços comuns a todos nós que consiste a salvação.

p.s.: sim, esse livro foi uma ótima companhia em Paraty!

Recortes:
“Então sentou-se numa pedra e muito teso ficou olhando. O olhar não esbarrou em nenhum obstáculo e errou num meio-dia intenso e tranqüilo. Nada o impedia de transformar a fuga numa grande viagem, e estava disposto a fruí-la. Olhava.” (pág. 24)

“Como um homem que alcança, ali estava ele exausto, sem interesse nem alegria. Estava envelhecido como se tudo o que lhe pudesse ser dado já viesse tarde demais.” (pág. 55)

Vitória era uma mulher tão poderosa como se um dia tivesse encontrado uma chave. Cuja porta, é verdade, havia anos se perdera. Mas, quando precisava, ela podia se pôr instantaneamente em contato com o velho poder. Já sem nomeá-lo, ela por dentro chamava de chave aquilo que sabia. Não se indagava mais o que tanto soubera; mas vivia disso.” (pág. 62)

E a coisa era de tal modo perfeita que até a perspectiva da distância se agregava àquela muito sem Deus. Pois quando o homem erguia os olhos – as árvores distantes eram tão altas, tão altas como uma beleza: o homem grunhia aprovando. Quanto mais estúpido, mais em face das coisas ele estava. Assim é que, aos poucos, a força de Martim foi se reconstituindo.” (pág. 78)

E um recorte que vale muito para mim:

“A dor, tão reconhecível, ficara. Mas para suportá-la fomos feitos.” (pag. 83)

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Paraty com Clarice

(Clarice Lispector em algum lugar do mundo!)

Que bom receber o carinho e aprovação de tanta gente bacana. Obrigada. A todos que deixaram comentários e aos outros tantos que não conseguiram postar e mandaram e-mails. Para esses, aliás, uma boa notícia. Acabo de regular as configurações e agora o blog aceita comentários de anônimos, ou seja, sem precisar de senha e coisa e tal. Mas os anônimos, faz favor, deixem uma pista, ta?

Viajo amanhã para Paraty. Viagem a trabalho, mas que me dará chance de respirar o mar e, mais que tudo, conhecer essa cidade que já vejo linda, mas onde nunca pisei. Enfim, viajo com "A Maçã no Escuro", de Clarice Lispector. Será que combina com o lugar? (Sim, para mim livros têm lugar, hora e companhia.) Bom, logo saberei. Uma coisa estou certa: Clarice casa com meu momento - e isso será tema de um próximo post. Clarice ever!


domingo, 25 de maio de 2008

O irreal para a dor









Nenhuma dor pode ser maior do que perder a única pessoa que conhece a sua alma. Eu perdi o Marquinhos, meu marido há 12 anos, meu namorado há 18, meu confidente desde sempre. Eu, que dependia do sorriso dele para ter um dia tranqüilo, agora me viro olhando uma foto. Eu, que não existia sem ele, agora, sem ele, me re-invento. Em parte, essa recriação vem de dentro de mim: a Julia, nossa primeira filha, que há 26 semanas cresce na minha barriga. Outra parte, sem dúvida, vem da ficção. Aliás, ficção e realidade, desde o dia 18/04/08, não se separam em mim. Essa separação não me interessa - talvez seja um comportamento típico dos que vivem amores platônicos.

Esse blog começou a ser gerado ano passado. Resolvi que só o lançaria quando tivesse tempo para atualizá-lo, ou seja, com o final do mestrado. Depois, ele ficou esperando a aprovação do Marquinhos para entrar no ar. Como tudo em minha vida, precisava ouvir sua opinião. Ele viu por cima e disse que gostou, mas eu quis mais, quis uma leitura calma e atenta de post por post – e isso ele não teve tempo de fazer. Cheguei a pensar em abandonar o projeto, mas uma voz me soprou no ouvido que não era assim que ele queria. E fiz o contrário: resolvi torná-lo público hoje, dia 26/05/08, data mais que especial. Hoje, Marquinhos completaria 35 anos de vida e nós, 12 anos de casamento. Esse é o meu presente: retomar projetos, criar outros, seguir em frente e continuar a escrever nossa história. Faço isso por mim, pela Julia e, mais que tudo, por ele.

Sejam bem-vindos. E apareçam, sempre!

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Abdias, de Cyro dos Anjos




(São Paulo: Globo, 2008. 232 páginas)

Com dois anos de atraso, chegou recentemente às livrarias a reedição de Abdias, de Cyro dos Anjos. Digo atraso porque a publicação comemora o centenário de nascimento do autor mineiro, completado em 2006. Enfim, a data é o que menos importa. O livro, publicado pela primeira vez em 1945, é um relato em forma de diário de um professor de literatura que se vê às voltas de uma paixão (não daquelas paixonites passageiras, mas das que doem e não cessam) por uma aluna de um tradicional colégio de freiras, em Belo Horizonte do final dos anos 1930. Além de todo provincianismo típico da época, o professor quarentão enfrenta seus próprios conflitos, dividido entre a vida de homem casado e com filhos e o desejo de aventura; entre a segurança e o equilíbrio da maturidade e a fuga e a ilusão da juventude.


A partir do personagem-narrador erudito e intelectualizado, o autor envereda por uma escrita clássica, à maneira de Machado, mas docemente contaminada pelas experimentações modernistas. Entre devaneios e revelações, o leitor é testemunha (única, aliás!) dos estados de alma de um homem sensível, absolutamente paralisado diante suas escolhas. Em alguns momentos, chega a ser penoso, diria até constrangedor ler as confissões. Mas, assim como há de ser quando (raríssimo) lemos um diário alheio, em que pese a sensação de invasor, não se larga até que chegue a última página.

Recortes
“Nada de dramatizações. Quero ser de uma sinceridade total. Não me julgo um monstro. Vou mesmo além. Acredito que todos os homens são mais ou menos assim e que a alma humana é um campo de batalha, um mar de contradições. Que nos condenem pelos atos, se por algo devemos ser condenados, e não pelos pensamentos. Aqueles, afinal, podem representar o fruto amadurecido de uma longa gestação do espírito, ao passo que estes muitas vezes não são mais que o lodo da alma revolta.” (p. 101)


“Servidão de amor, a mais melancólica das servidões. Por que há de o homem escravizar-se a vãs formas que o tempo dissolve? O amor nada tem da essência de Ariel. É Calibã, que rasteja, embriagado.” (p. 129)


“Exerço, no mundo das letras, atividade modesta. Não sendo um criador, minha função é a das muitas formigas que sem cessar carreiam para o celeiro literário os frutos quase anônimos do seu trabalho: um estudo subsidiário, uma pesquisa, pequeno ensaio crítico.” (p. 162)

terça-feira, 8 de abril de 2008

Shakespeare & Co.






Passei bem menos tempo do que gostaria lá dentro, principalmente porque minha alergia não me daria sossego entre estantes empoeiradas e sofás que cheiram a pêlo de gato. A Shakespeare & Co. é mesmo um monumento contra todo e qualquer suspiro de mundo moderno. Difícil imaginar como se mantém firme e forte (verdade que não é a original, fechada pelos nazistas em 1941. Estamos falando da casa aberta em 1951 pelo excêntrico George Whitman), sem se dar conta que lá fora é época de livrarias ultramodernas, onde livros que não figuram na lista dos mais vendidos têm sobrevida, e logo estarão fadados ao catálogo virtual. Ainda hoje, dizem, a livraria dá abrigo a escritores estrangeiros, publicados ou não.
Qualquer um pode fazer uso dos sofás, dos livros e das máquinas de escrever (!) pelo tempo que precisar. O andar de baixo até que lembra uma livraria convencional, com lançamentos, uma ótima seção de livros de arte e um caixa. Subir as escadas, no entanto, é como voltar no tempo. Não há caixa-registradora, alarmes anti-roubo, nem atendentes. Os livros estão ali, empilhados. Parece a mesma casa de Sylvia Beach (a mesma que editou Ulisses, de James Joyce). Aliás, foi na livraria que o escritor irlandês encontrou refúgio quando toda Inglaterra o acusava de ofender os bons costumes ingleses. Não só ele. A Shakespeare & Co. foi abrigo de André Gide, Paul Valéry, Hemingway, Walt Whitman, E. Allan Poe, Oscar Wilde, só para citar alguns. Normal, portanto, que o lugar guarde uma atmosfera especial, densa, misteriosa, como se algo estivesse sendo tramado nesse exato momento em algum dos cantos mal iluminados, quem sabe um grande livro!


Quando estiver em Paris: a Shakespeare & Co. fica no número 37 da Rue de La Bûcherie, bem ao lado da Notre Dame, metrô: Cité.

"Um lugar quente e amistoso, com uma grande estufa no inverno, mesas e prateleiras com livros, novos títulos na vitrine e, nas paredes, fotografias de escritores famosos, vivos e mortos." (Hemingway)

terça-feira, 6 de novembro de 2007

As cidades e seus artistas




Acabo de voltar de férias. Foram 15 dias entre três das cidades mais encantadoras da Europa: Paris, Amsterdam e Berlin. A única que não conhecia até então era Berlin. Era, portanto, a que me enchia mais de curiosidade.

Uma das coisas que mais me encantam quando estou viajando fora do país é relacionar os lugares que passo com os artistas que ali nasceram ou produziram. É uma mania muito particular minha, que divido com o Marquinhos quase sempre, de procurar saber que artistas de verdade resumem com suas obras ao menos um dos lados da cidade. Depois, tento passar nos lugares que eles passaram, repetir caminhos que lhe eram rotineiros - acho que assim consigo captar um pouco de suas áureas!

Nem sempre são escritores, embora em sua maioria sim. Nem sempre são os óbvios, nem sempre estão citados nos guias de viagem. Enfim, eis o resumo de minhas férias, por esse ponto de vista:

Paris - Essa foi a segunda vez que fui à cidade que considero a mais charmosa do mundo. Na primeira, era muito claro: Cortázar representava a minha Paris. Mais precisamente, Cortázar de Amarelinha. Nunca mais na vida olhei para um clochard como antes depois desse livro. As Magas passavam diante de mim sem cessar na primeira vez. Mas Paris é enorme, são muitas e basta mudar o endereço do hotel para tudo parecer diferente. Tudo indica, dessa vez conheci a Paris de Hemingway. Fiz questão de ir até a Shakespeare & Co. (que será assunto de outro post) e me senti um pouco testemunha daquela festa. E também me senti na Paris de Proust, enquanto lia o No Caminho de Swann em algum café do bl. Hausmann. Foi incrível.

Amsterdam - Resolvemos repetir o roteiro que fizemos há cinco anos e incluimos Amsterdam, de última hora, na viagem. Fizemos o mesmo trajeto, pela mesma estrada, entre Paris e Amsterdam, dessa vez de dia, o que me fez perceber melhor as transformações que separam essas duas cidades. Parece que o quadro de Van Gogh vai sendo construído - até a luz muda. Van Gogh é, sem dúvida, uma incrível representação de Amsterdam, mas como ele próprio, eu também me rendi (mais uma vez) a Rembrandt. Eu me senti o próprio Rembrandt um sem número de vezes paralisada diante da vida alheia dessa nova burquesia holandesa, que assim como seus antepassados, gosta de não ter nada a esconder. Show para os olhos. Quadros vivos. Mas não posso esquecer, a viagem não seria tão encantadora sem a melhor descoberta das férias: um maravilhoso pequeno hotel, perto da casa da Anne Frank, numa rua residencial cortada por um majestoso canalzinho. Nosso quarto tinha vista para o canal, podíamos ouvir os patos nadando e os sinos de uma igreja ali de perto. Encantador. Quis morar naquele quarto.


Berlin - De início, achei a cidade feia. Depois, fui entendendo suas sutilezas e, um dia antes de minha partida, chamava-a de linda! - o que me deixa ainda mais segura para enxergá-la em Günter Grass, prêmio Nobel de Literatura em 1999. Berlin é contraditória como o autor, ainda marcado em minha memória por recentemente ter assumido seu passado nazista (disse, ele próprio, ter integrado a Waffen-SS, tropa de elite nazista atuante no Holocausto). Rara e apaixonante. Nunca um amor à primeira vista, sem obviedades. Os alemães se esforçam mesmo para serem gentis, e chegam a ser muitíssimas vezes. Quero voltar lá, de preferência no verão. De certa forma, a melancolia do outono em Berlin me contaminou. Mais tarde escreverei mais sobre o que pude enxergar nos olhares de Berlin.