(Com a avó Sílvia)segunda-feira, 25 de maio de 2009
terça-feira, 12 de maio de 2009
Livros que inspiram e Requena
Parece verso de Martinho da Vila, mas já li livros de todos os tipos, acho. Os que os mais gosto, sem dúvida, são os que me instigam. Tem aqueles que te paralisam, e são bons, claro. Mas nada como ler uma coisa que me inspira a fazer outras coisas. Talvez seja cedo para dizer (estou apenas na página 21), mas “O Edifício Yacubian”, de Alaa Al Aswany (Companhia das Letras) tem me feito isso. Interrompi a leitura para escrever (aqui, inclusive), porque precisava. Bom, ne?
O livro que li na semana passada também é assim. “Requena”, de Alejandro Garcia Schnetzer (por enquanto, apenas disponível em edição argentina da editora Entropía). Terminei de ler tarde da noite e não pude esperar até amanhã para escrever minhas impressões, tamanho entusiasmo. E isso por dois motivos: Alejandro é meu amigo e o livro é realmente muito bom.
Alejandro, conheci na Espanha. Fizemos parte da mesma turma de pósgraduação na Universidad de Barcelona. Aliás, uma turma que reuniu gente talentosíssima, e incrivelmente casamenteira, da qual me orgulho ter feito parte. Minha pequena gangue na época (eu e Marquinhos, Miguelito e Txell, Corina, e Marta – hoje casada com Alejandro) o apelidou de “El argentino”. Além da razão óbvia da nacionalidade de Alejandro, havia a atmosfera quase dramática que ele sempre criou ao seu redor, com sua inseparável “pipa” e seus trajes negros. Muy argentino.
O livro foi lançado ano passado, mas só tive conhecimento há coisa de 20 dias quando um exemplar chegou pelos correios. Enxuto, com uma narrativa deveras econômica, é a transcrição de anedotas, pequenos causos e frases marcantes de um certo Requena a um grupo de estudantes interessados em literatura. Requena é um erudito, conhecedor das coisas da vida e da literatura, muito generoso na partilha do seu pensamento – lembra alguém?
Requena se torna o motivador e a referência das especulações filosóficas do grupo. Alejandro aplica uma instigante construção narrativa, com tiradas marcadas de sarcasmo, ironia e originalidade. De Requena saem pérolas como:
“(...) Usted, Lanuza, deje de querer ser otro. Encuéntrese. Escritor que no se encuentra a si mismo mejor que se dedique a otra cosa. A viajar por ejemplo...”
“De un diálogo que había escrito:
Adán: Eva, esta felicidad no puede durar mucho. Tarde o temprano Fortuna hará girar su rueda y Tristeza vendrá.
Eva: ¡Pero viví el presente, hacé el favor! Y vos, retorcida, decí qué tenés de postre!”
Qualquer semelhança com Borges não é mera coincidência. É em Borges que Alejandro nos faz pensar, recriando sua imagem sem ao menos citá-lo. Adorei.
O livro que li na semana passada também é assim. “Requena”, de Alejandro Garcia Schnetzer (por enquanto, apenas disponível em edição argentina da editora Entropía). Terminei de ler tarde da noite e não pude esperar até amanhã para escrever minhas impressões, tamanho entusiasmo. E isso por dois motivos: Alejandro é meu amigo e o livro é realmente muito bom.
Alejandro, conheci na Espanha. Fizemos parte da mesma turma de pósgraduação na Universidad de Barcelona. Aliás, uma turma que reuniu gente talentosíssima, e incrivelmente casamenteira, da qual me orgulho ter feito parte. Minha pequena gangue na época (eu e Marquinhos, Miguelito e Txell, Corina, e Marta – hoje casada com Alejandro) o apelidou de “El argentino”. Além da razão óbvia da nacionalidade de Alejandro, havia a atmosfera quase dramática que ele sempre criou ao seu redor, com sua inseparável “pipa” e seus trajes negros. Muy argentino.
O livro foi lançado ano passado, mas só tive conhecimento há coisa de 20 dias quando um exemplar chegou pelos correios. Enxuto, com uma narrativa deveras econômica, é a transcrição de anedotas, pequenos causos e frases marcantes de um certo Requena a um grupo de estudantes interessados em literatura. Requena é um erudito, conhecedor das coisas da vida e da literatura, muito generoso na partilha do seu pensamento – lembra alguém?
Requena se torna o motivador e a referência das especulações filosóficas do grupo. Alejandro aplica uma instigante construção narrativa, com tiradas marcadas de sarcasmo, ironia e originalidade. De Requena saem pérolas como:
“(...) Usted, Lanuza, deje de querer ser otro. Encuéntrese. Escritor que no se encuentra a si mismo mejor que se dedique a otra cosa. A viajar por ejemplo...”
“De un diálogo que había escrito:
Adán: Eva, esta felicidad no puede durar mucho. Tarde o temprano Fortuna hará girar su rueda y Tristeza vendrá.
Eva: ¡Pero viví el presente, hacé el favor! Y vos, retorcida, decí qué tenés de postre!”
Qualquer semelhança com Borges não é mera coincidência. É em Borges que Alejandro nos faz pensar, recriando sua imagem sem ao menos citá-lo. Adorei.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Sobre ser mãe/pai
Desde que me tornei uma mãe/pai, tenho notado que ser mãe ou ser pai é um estado de espírito, e não depende de gênero. Eu consigo perceber muito bem quando sou um ou outro – e quando sou os dois. Se não, vejamos:
- Quando tento ninar minha bebê enquanto torço pelo Sport (pelo leão tudo!) diante da TV, sou pai.
- Mas quando ensaio passinhos de balé na frente dela, num esforço incrível para relembrar o passado, sou mãe!
- Quando, de saída para o trabalho, beijo minha filha e digo; “vou ali ganhar dinheiro pra gente”, sou pai.
- Mas quando arrumo a mala da Jujuba para sua primeira viagem ao Rio e separo os montinhos entre “se fizer calor” e “se fizer frio”, sou muito mãe.
- Quando tento ninar minha bebê enquanto torço pelo Sport (pelo leão tudo!) diante da TV, sou pai.
- Mas quando ensaio passinhos de balé na frente dela, num esforço incrível para relembrar o passado, sou mãe!
- Quando, de saída para o trabalho, beijo minha filha e digo; “vou ali ganhar dinheiro pra gente”, sou pai.
- Mas quando arrumo a mala da Jujuba para sua primeira viagem ao Rio e separo os montinhos entre “se fizer calor” e “se fizer frio”, sou muito mãe.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Ruído clássico
A primeira reação ao me ver ante “O Resto é Ruído”, livro de Alex Ross lançado pela Companhia das Letras, foi de medo. Quase 700 páginas sobre música clássica? Será? Confesso, não faço parte do grupo de apaixonados por esse estilo musical (“arte dos mortos”, diriam), embora me sinta sensível suficiente para identificar a beleza de uma peça de Strauss. Mas explicar o século XX pela música clássica me pareceu, num primeiro momento, forçado demais. Não é.
Crítico da New Yorker, Alex Ross tem em seu favor um incrível talento para apuração. Ele foi fundo e soube organizar muito bem a defesa de sua tese: a de que, em que pese a diminuição progressiva de público de 1900 para cá, a música clássica nunca esteve apartada da sociedade. Ao contrário, em muitos momentos chegou a antever fatos políticos e culturais.
Instigante, não?
Então, para os que não se assustam com calhamaços, uma boa leitura:
http://entretenimento.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/2009/04/26/ult5668u91.jhtm
Crítico da New Yorker, Alex Ross tem em seu favor um incrível talento para apuração. Ele foi fundo e soube organizar muito bem a defesa de sua tese: a de que, em que pese a diminuição progressiva de público de 1900 para cá, a música clássica nunca esteve apartada da sociedade. Ao contrário, em muitos momentos chegou a antever fatos políticos e culturais.
Instigante, não?
Então, para os que não se assustam com calhamaços, uma boa leitura:
http://entretenimento.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/2009/04/26/ult5668u91.jhtm
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Seres vulneráveis
Sim, “O Filho da Mãe” (Companhia das Letras), de Bernardo Carvalho, terminará o ano entre os melhores lançamentos brasileiros, disso não tenho dúvida. O livro é muito bom e tenho isenção total para dizer isso: nem conheço o cara e nem acreditava muito nesse projeto “Amores Expressos”. Não engrosso o coro dos que acham absurdo financiamento público para a literatura (se financia tão pouco a literatura no nosso país...), mas duvidava que saíssem coisas realmente relevantes do projeto. Bom, não digo pelos outros 15, mas pelo menos uma boa história de amor saiu, e veio de São Petersburgo. Lá Bernardo passou um mês com a missão de parir um livro. Haja pressão!
A resenha você pode ler em
http://entretenimento.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/2009/04/12/ult5668u89.jhtm
Eu só queria colocar aqui uma questão que me deixou, como diria minha vó, com uma pulga atrás da orelha.
”O Filho da Mãe” é, sobretudo, um livro sobre a vulnerabilidade, em especial a materna. As mães estão pelo avesso nessa trama complexa e cheia de tensão. São vulneráveis, como aliás somos todos nós.
Perceber-se vulnerável é assustador. Mais assustador que a vulnerabilidade em si é notar-se dentro dela. É a imagem de um homem (ou uma mulher) andando só numa rua escura – absolutamente sujeito ao desconhecido, que necessariamente não é ruim, mas até saber o que é, atemoriza.
No livro, Bernardo Carvalho vai e volta no tema. É vulnerável o casal de turistas perdidos a procura do hotel. É vulnerabilidade o que o ladrão procura nos olhos de suas prováveis vítimas. E da vulnerabilidade alheia que se alimenta o amor - e ai fiquei baratinada:
“Quando não há mais nada, há ainda o sexo e a guerra. O sexo e a guerra são o que todo homem tem em comum, rico ou pobre, educado ou não. O sexo e a guerra não se adquirem. A ideia de uma vulnerabilidade maior que a sua lhe desperta o amor.” (pag. 139)
A sujeição do outro preenche o amor (e, por consequência, o ódio).
Reticências.
A resenha você pode ler em
http://entretenimento.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/2009/04/12/ult5668u89.jhtm
Eu só queria colocar aqui uma questão que me deixou, como diria minha vó, com uma pulga atrás da orelha.
”O Filho da Mãe” é, sobretudo, um livro sobre a vulnerabilidade, em especial a materna. As mães estão pelo avesso nessa trama complexa e cheia de tensão. São vulneráveis, como aliás somos todos nós.
Perceber-se vulnerável é assustador. Mais assustador que a vulnerabilidade em si é notar-se dentro dela. É a imagem de um homem (ou uma mulher) andando só numa rua escura – absolutamente sujeito ao desconhecido, que necessariamente não é ruim, mas até saber o que é, atemoriza.
No livro, Bernardo Carvalho vai e volta no tema. É vulnerável o casal de turistas perdidos a procura do hotel. É vulnerabilidade o que o ladrão procura nos olhos de suas prováveis vítimas. E da vulnerabilidade alheia que se alimenta o amor - e ai fiquei baratinada:
“Quando não há mais nada, há ainda o sexo e a guerra. O sexo e a guerra são o que todo homem tem em comum, rico ou pobre, educado ou não. O sexo e a guerra não se adquirem. A ideia de uma vulnerabilidade maior que a sua lhe desperta o amor.” (pag. 139)
A sujeição do outro preenche o amor (e, por consequência, o ódio).
Reticências.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
terça-feira, 7 de abril de 2009
Eu e as cidades
Não sei se é pelo regresso de minha primeira viagem internacional depois que virei mãe (a trabalho, é verdade, mas ainda assim uma viagem!) ou se pela leitura de dois livros seguidos com o tema emaranhado, talvez por causa de ambos, o fato é que tive vontade de escrever sobre cidades.
Voltei de Londres; acabo de resenhar para UOL (link abaixo) o novo livro de contos do Hatoum que tem Manaus como epicentro; e agora estou lendo “O Filho da Mãe”, de Bernardo Carvalho, cujo centro de tudo é São Petersburgo. Três cidades, três moldes.
De tanto ler e pensar, cheguei a minha própria história – nos últimos 12 anos, cinco cidades: Recife (onde tudo começou), Olinda, Belo Horizonte, São Paulo, Barcelona, e mais uma vez São Paulo. E planos de outras, muitas outras.
Fui uma em cada cidade? Não. Mas sim que cada cidade me alterou de uma forma. Apagou pedaços, desenhou outros. Claro, desse jeito a vida é saudável. De minha parte, desconheço prazer melhor que o “sentir-se estrangeira”. E talvez por isso goste tanto de São Paulo.
Um brinde ao desconhecido – quem gosta de desvendar mapas vai entender do que estou falando. É gostar do gosto de abrir o guia de ruas ou tentar entender onde começa West End e onde termina Westminster.
Em muitos dos contos do Hatoum, há um olhar estrangeiro. Seja do gringo que está certo de ter chegado ao fim do mundo, seja do brasileiro residente nos Estados Unidos e ainda assim perseguido pelas lembranças de Manaus. Dá quase para sentir o cheiro de cachaça, do sol da tarde e da floresta da cidade pensada por Hatoum.
A São Petersburgo de Bernardo Carvalho está em obras. Os personagens estão sufocados de poeira, andaimes e telas protetoras de prédios em reforma. E mesmo tendo como imagem paralela a guerra da Tchetchênia, é a cidade em mutação que dá o ritmo à trama. Enfim, desse livro não posso falar muito porque ainda não terminei de ler.
O resumo é que eu gosto de estar onde estou porque nunca deixei de ser um pouco estrangeira em São Paulo. E nem quero deixar de ser. Só assim dá para sentir-se em casa em território distante, mesmo sem saber muito bem distante de quê.
Resenha de “A Cidade Ilhada”, de Milton Hatoum em
Assinar:
Postagens (Atom)




