quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Livro para ouvir

Não vivo sem música. Ponto. Não tem artista na minha família, mas lá em casa todo mundo é bamba. A gente não é de cantar ou tocar, mas é de dançar. Durante muito tempo levei a faculdade de jornalismo e as aulas de dança paralelas, sem saber se sairia jornalista ou bailarina. Fiz minha escolha, mas não parei de dançar. E hoje estar na plateia de um show bom ou numa pista fervendo são mais que prazeres, necessidades. Julia segue o mesmíssimo caminho.

Dito isso explico o prazer que tive ao ler “Noturnos”, de Kazuo Ishiguro (Companhia das Letras), tema da minha última resenha no UOL. O autor é um japonês que cresceu em Londres e que figura entre os grandes nomes da literatura desses dias, tendo na gaveta um “Booker Prize” por “Resíduos do Dia” (livro de 1989).

Neste “Noturnos”, Ishiguro exercita uma linguagem mais leve, bem humorada e concisa. São cinco histórias curtas com a música como ponto comum. As referências musicais são deliciosas. Narrativa sem segredos, para ler sem peso, e com prazer, como uma boa música.

Fica a dica – e oh!, nem tudo que eu leio, indico no blog. Muita coisa simplesmente não entra aqui. “Noturnos” vale!

A resenha:
http://entretenimento.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/musica-humor-e-narrativa-concisa-estao-em-noturnos-de-kazuo-ishiguro.jhtm

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Notas de um fim de semana

Sobre individualismo
A Julia está num momento muito, muito interessante. Como não leio livros que dividem infância por fases, não sei explicar muito bem, mas dizem que é a primeira adolescência do serzinho, agora com dois anos. O período é marcado por um “esse mundo é meu” sem limites. Tudo é dela, e só dela. Em alguns momentos, explico: “não filha, isso não é seu, é de todo mundo” – quando, por exemplo, ela começou a brigar porque a Tati disse que tinha um sobrinho chamado Caio e ela achou um absurdo, afinal Caio (no caso, o primo) é dela! Difícil explicar que existem dois, três, um milhão de Caios. Em outros momentos, eu me divirto e na real alimento esse individualismo. Se para ela é tão importante repetir que aquela revista rasgada é dela, por que não? Acho que se eu tivesse tido essas noções de individualismo na minha primeira adolescência, teria poupado um bocado de terapia.


(Gil Vicente, "Inimigos")
(Nuno Ramos, "Bandeira Branca")

(Julia, "As Palavras e o Mundo", SESC Pompéia)


Sobre dividir
De vez em quando eu curto São Paulo como turista que sou. Devia fazer mais vezes porque é sempre muito bom e até me acalma. Divido a minha programação.

Começou sexta com showzinho no SESC Pompéia: festival Invasão Sueca, com Taken by Trees e Anna Von Hausswolff. Não conhecia nenhum dos dois e fui com a expectativa de um bom show, e nada mais. Foi mais que isso.
A primeira apresentação foi da pianista Anna Von Hausswolf, acompanhada só de bateria e uma guitarra. Lindo de morrer. Chorei da plateia, mas um choro feliz. Choro de quem se emociona com a descoberta do belo. Depois foi o Taken by Trees, nome do projeto da cantora Victoria Bergsman, gravado no Paquistão. Victoria ficou conhecida para mim porque canta uma das músicas que mais gosto esses dias, chamada “Young Folks”, fazendo vocal com Peter Bjorn and John. Ela tem uma presença estranha no palco, quase feia. Mas quando canta...
E fora que são todos fofos esses suecos. E o SESC Pompéia é um lugar que eu amo.

No sábado, fui na Bienal. Podia falar aqui na aventura que foi presenciar a pichação na obra do Nuno Ramos, que colocou três urubus lá na sua “Bandeira Branca” e teve de ouvir poucas e boas dos ambientalistas. Particularmente acho que os urubus estão ótimos, que é uma experiência para eles também e a obra não me fere. Até gosto, para falar a verdade.
Mas enfim, prefiro contar do trabalho do Gil Vicente. Ouvi de um amigo que a série “Inimigos” soava para ele muita apelação, quase uma violência gratuita. Discordo.
Gil Vicente apresenta autorretratos matando Lula, FHC, a rainha Elizabeth, o papo Bento XVI, Kofi Annan, Eduardo Campos, George Bush, Ariel Shalon e Jarbas Vasconcelos. Claro que a imagem mais direta é essa mesma: o artista contra o sistema – uma visão que pode soar antiga, talvez extinta, mas que ainda assim eu acredito.
Mas gostei muito do artigo de Sérgio Telles, publicado no “Aliás” desse final de semana, em que levanta a teoria psicanalítica do assassinato do pai. Pelo seu ponto de vista, o que está retratado ali enquanto morte é a imagem do paternalismo, muito comumente explorada pelos líderes políticos. E não se trata de imagens de pais edipianos, cuja morte abre caminho para a quebra da moral, do estabelecido. Os assassinados pelo artista são os pais primitivos, que estão acima do poder, de onde se julgam os únicos capazes de proteger sua horda. Esse paternalismo me incomoda, por isso vejo o trabalho de Gil Vicente pela possibilidade de catarse, não como uma proposta panfletária.

Por último, no domingo, levei Julia para ver “As Palavras e o Mundo”, no SESC Pompéia. Tinha contadora de histórias (a Ju ainda não tem paciência, e dessa vez saiu correndo no meio da apresentação!), cineminha, várias caixinhas com representações visuais de palavras, pescaria de palavras, estímulos sonoros para os usos das palavras – enfim, bem bacana para curtir com a minha pequena leitora.

29 Bienal de São Paulo, até 12 de dezembro no Parque Ibirapuera.
As Palavras e o Mundo, até 17 de outubro no SESC Pompéia.

sábado, 11 de setembro de 2010

Woman as muse



(Dame Laura Knight, “Three Graces”)

Das coisas inexplicáveis da minha vida, cheguei ontem da Grécia. Foram dez dias de programação intensa de trabalho, muita visita a vinhedo, degustação de vinho, fábrica de mel, produtor de feijões brancos gigantes, enfim, muita coisa deliciosa, mas pouco tempo para conhecer o país mesmo. Só um dia antes da volta, consegui entrar num museu, e não foi o de arqueologia! Decidi ir num museu privado, pequeno e meio escondido só pra ver essa exposição: “Woman as muse”, um apanhado sobre a mulher como inspiração na arte. E pensar em musas na Grécia foi cereja no bolo demais pra mim.
Na mitologia grega, eram nove as musas, todas filhas de Mnemosine e Zeus e associadas a uma inspiração: música, tragédia, comédia, eloqüência, poesia lírica, história e astronomia, dança e música sacra. Para cada uma das artes, a imagem de uma das musas. Foi com o Cristianismo que a mulher perdeu seu poder de deusa inspiradora, afinal inspiração vinha do céu. E o status de musa só volta, em novo conceito, é verdade, com o Renascimento, quando a arte se voltou ao estudo do corpo humano.
A exposição segue citando Dante Alighieri (1265-1321) e seu fascínio pela mulher normal, da rua, personificado em Beatrice Portinari. À sua musa, ele deve o impulso do seu primeiro soneto de amor, quanto tinha 16 anos.
Os artistas do século 19, em particular realistas, impressionistas e pós-impressionistas, se inspiraram nas mulheres do dia a dia. Degas buscou a mulher num café, a bailarina ensaiando. Gaugin não resistiu às nativas do Tahiti. Toulouse-Lautrec ficou obcecado por atrizes, cantoras, dançarinas. Algumas como Yvette Guilbert, ele seguiu por noites, assistindo o mesmo espetáculo milhão de vezes.
Os quadros, a maioria desenhos, são de 1900 a 1950 e de artistas europeus. Tem coisas ótimas de Salvador Dali, Henri Matisse, Henri de Toulouse-Lautrec e Picasso - cuja obra evolui, dizem, de acordo com a mulher que ele se relacionava na época.
Até dia 21 de novembro, no Herakleidon, ali em Atenas, Grécia.
http://www.herakleidon-art.gr

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Histórias de amor

(Serginho e Érika, que casaram dia 21 de agosto - Foto mais que incrível da mais que incrível Dani Picoral)

Estou tomada de amor. Como se não bastasse o aniversário da Julia (dois anos nesta quinta, dia 26), fim de semana passado fui num casamento. Amo casamentos. Até aqueles todo organizadinhos, que só falta ter hora marcada para o público chorar, até esses eu gosto, e me emociono e me sinto preenchida de energia boa depois. Infelizmente, meus amigos não são dados a casar. E os que casam, demoram a celebrar. Fim de semana passado, festejamos um recém-nascido de seis anos. Foi demais. E esse casamento me fez pensar em histórias de amor, e cheguei à listinha abaixo. Livros de amor que qualquer romântico deveria ler ao menos uma vez na vida.

“O Amante de Lady Chatterley”, D. H. Lawrence – Constance casa com um oficial inglês que volta da guerra inválido, numa cadeira de rodas. Ela aceita a castidade até conhecer Oliver, feio e rude, um homem forte como a natureza. Além de um livro de amor, é um livro deliciosamente erótico.

“Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”, Clarice Lispector – Esse livro é a própria materialização do amor. Se algum escritor conseguiu em vida se aproximar de uma definição de amor, foi Clarice e foi com esse livro. Sem mais.

“Para Francisco”, Cris Guerra – Amor é muito pessoal, e esse livro fala diretamente comigo, embora suspeite que qualquer pessoa possa sentir o mesmo. O diário virtual de uma mãe tentando apresentar ao filho o pai morto antes do nascimento dele é amor puro e verdadeiro.

“Cartas a D.”, de André Gorz – Li esse livro num momento inapropriado, e por isso mesmo foi catarse pura. O autor revê 54 anos de relacionamento com a esposa Dorine Keir, vítima de um erro médico que lhe causou uma doença grave.

“Ninguém escreve ao coronel”, Gabriel García Márquez – O amor senil me emociona. Nesse livro, o coronel e sua esposa vivem a ansiedade da espera por uma correspondência que mudaria suas vidas. Esperam uma carta que anuncie uma recompensa do estado. Esperam pobres, passando fome. E ainda tem o galo de briga, a esperança viva entre eles. Que livro!

Avalovara, Osman Lins – Encontros, perdas, ganhos, ausências. Avalovara expressa na própria construção narrativa a confusão que é o amor. O instável que é amar. Um dos livros da minha vida.

Essa lista deve aumentar com o tempo porque minha memória tem delay.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Medo da palavra


Duas leituras recentes que eu gostei e recomendo: “Paisagem com Dromedário”, de Carola Saavedra (Companhia das Letras) e “O Caso Morel”, de Rubem Fonseca (reedição da Agir). Os dois estão nas estantes de lançamentos das melhores livrarias e valem levar para casa. Sobre as qualidades narrativas de cada um, vocês podem ler nas resenhas do UOL. Chamo atenção aqui para um ponto comum entre os textos: o medo da palavra permeando a narração.

“O Caso Morel” foi o primeiro romance de Rubem Fonseca, lançado em 1973. Talvez eu tenha lido quando me preparava para o vestibular, lá atrás, mas não lembrava nada do enredo e reli como novidade. Paul Morel, personagem principal do livro, pensa que pode usar as palavras para exorcizar seus demônios – que não são poucos. Da cela onde está preso pelo suposto assassinato de uma socialite carioca, o artista plástico intransigente e dado à promiscuidade tenta escrever sua biografia. Entre lembranças e invenções, Morel repete como mantra seu medo da palavra.

Em “Paisagem com Dromedário”, a personagem Érika se atormenta com compromisso de ser pela primeira vez na vida absolutamente verdadeira. Escolhe, ao invés da palavra escrita, a palavra falada para seu testamento sentimental. Usa um gravador para mostrar-se ao ex-namorado, enquanto vive um período de isolamento social numa ilha sem nome depois que uma tragédia muda para sempre sua vida afetiva. Não só sua voz, mas todos os sons ao seu redor contam sua história. A linguagem oral se torna, pelas mãos da autora, uma ferramenta de oposição à palavra escrita. O medo da palavra verbalizada é um assunto recorrente no livro, até que a personagem parece conseguir domá-la – numa relação muito clara com o processo narrativo.

Também tenho medo da palavra. Sinto um misto de respeito e devoção porque conheço seu descontrole. E o que é escrever se não a tentativa sem fim de controlar a palavra?

As resenhas de “O Caso Morel” e “Paisagem com Dromedário” estão no UOL.

http://entretenimento.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Sobre estar só



Era um dia qualquer, mas agora eu podia escolher o caminho, conversar ou não, ler ou não, chorar ou não, sorrir talvez. E também podia tomar vinho no gargalo, andar descalça na lama, observar longamente as pessoas da mesa de um café depravado. Entrar no cinema e sair antes do filme acabar. Entrar no cinema e só sair quando passassem todos os créditos, só para ver quem canta aquela música. Podia dormir ao meio-dia, acordar às três da manhã. Virar amiga do desconhecido sentado ao meu lado no avião. Entrar e sair de uma festa sem conhecer ninguém. Caminhar por horas, e em círculos, só para exercitar as pernas. Ou pegar um táxi para atravessar um quarteirão. Podia me vestir para uma festa e ir só até a padaria. Podia deixar o telefone tocar e depois dizer que não ouvi. Escrever uma carta chorando e não enviá-la nunca. Pedir uma pizza gigante e comer só as azeitonas. Tomar coca-cola no café da manhã, antes de escovar os dentes. Podia dizer que meu nome é Maria. Podia inventar uma Maria para ser eu. E matá-la quando bem entendesse. Coisas bestas assim, como se sentir livre sem ser.

Textinho inspirado neste vídeo lindo que me foi apresentado via Facebook da Renata Simões.


http://www.youtube.com/watch?v=k7X7sZzSXYs

terça-feira, 6 de julho de 2010

Uruguai de Benedetti


Queria que o Uruguai ganhasse por vários motivos: pela picanha uruguaia, pelo Lugano, pela força latina e, principalmente, por Mario Benedetti, poeta dos meus preferidos que morreu ano passado. Dele, um poema que eu nunca canso de ler:

SOY MI HUESPED

Soy mi huésped nocturno
en dosis mínimas
y uso la noche
para despojarme
de la modestia
y otras vanidades

aspiro a ser tratado
sin los prejuicios
de la bienvenida
y con las cortesías
del silencio

no colecciono padeceres
ni los sarcasmos
que hacen mella

soy tan solo
mi huésped
y traigo una paloma
que no es prenda de paz
sino paloma
como huésped
estrictamente mío

en la pizarra de la noche
trazo una línea
blanca

(De La Vida ese Parentesis)