segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Alegria X morte

Ontem ouvi um filósofo falar na TV sobre "alegria X morte". Ele explicava a relação possível entre as duas coisas e como tirar uma da outra. Partia da leitura de Spinoza quando dizia que para ser alegre é preciso um tanto de loucura. Não a loucura psiquiátrica o que, nesse caso, pode-se tomar como exemplo a atitude insana de agir como se a morte não existisse, e continuar contando com a presença física da pessoa que se foi. Essa loucura faz mal e exige tratamento.

O tal filósofo falava da loucura filosófica, a que consiste em admitir os devaneios como parte da existência. Enfim, aceitar outra forma de existência possível, que não a da matéria. Lembrei de quando inaugurei esse blog anunciando minha proposta de vida pela ficção. O real e a invenção como partes da mesma coisa, dessa coisa que chamamos vida.

Há técnicas para driblar o sofrimento e encontrar alegria na morte. Uma delas consiste em, ao invés de cultuar a ausência, a partida, brindar a memória. Substituir a lamentação dolorosa (e aqui lembro muito do Marquinhos, que rechaçava toda e qualquer lamentação!) pela esperança da continuação. O encanto pelo que fica (de aprendizado, de exemplo, de energia) e não pelo que se perde.

Penso em tudo isso justamente quando se completam quatro meses da morte repentina e dolorosa (para nós que ficamos) do Marquinhos. E concluo que fiz minha escolha: quero a alegria de cultuar a memória, não o sofrimento de contar o que perdi. Marquinhos me deu muitas coisas, infinitas, irrepreensíveis, e são essas coisas que me interessam!

p.s.: no sábado, dia 09/08, nasceu a Laís, filha do Nuno e da Adri. Nesse sábado, dia 16/08 (no mesmo dia da Madonna e do eclipse da lua), nasceu Vicente, da Ju e do Rodrigo. Algo me diz, essa semana nasce a Julia, minha e do Marquinhos. E assim a vida se renova, sem lamentações, com alegria e um pouco de loucura, porque ninguém é de ferro.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Hedonismo literário

Uma vez o Marquinhos me disse, no meio de um de nossos intermináveis debates sobre arte, que eu precisa valorizar mais os livros despretensiosos. Acho que naquele dia ele citou alguém, não lembro quem, que disse dias antes numa entrevista que faltavam escritores leves, que não buscam lançar uma obra-prima, nem repetir a fórmula dos clássicos. Que escrevem para divertir, para aliviar as tensões ou só porque não há outra alternativa que não escrever. E lançam, assim, livros sem peso, do tipo que devoramos numa sentada e que podem até ser esquecidos na semana seguinte, mas que proporcionam momentos agradáveis no presente. Hedonismo literário - fiquei com isso na cabeça.

Durante os anos de mestrado, impossível experimentar esse tipo de leitura. Mas agora que estou lendo muitos lançamentos tento buscar esses livros leves. É nessa esfera que vem a dica da semana: "Ler, Viver e Amar em Los Angeles", estréia das americanas Jennifer Kaufman e Karen Mack. É um livro sobre uma leitora, um tema tão antigo quanto o próprio romance moderno e que sempre dá jogo. Li rapidinho (300 páginas em duas noites!) e curti.

Go, go, go:
http://diversao.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/2008/08/04/ult5668u46.jhtm

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Contas

(Desenho da espanhola Elena Odriozola)

Hoje, 36 semanas de Julia + eu.
Hoje, 15 semanas de eu - Marquinhos.
Essa conta não fecha. Ou fecha?

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O sempre no nunca


É preciso vencer alguns preconceitos para experimentar a beleza de “A elegância do ouriço”, segundo romance da francesa Muriel Barbery, nascida em Bayeux, mas residente na Normandia (tradução de Rosa Freire d’Aguiar, Companhia das Letras, 2008). O primeiro preconceito a ser vencido, pelo menos de minha parte, é contra o estigma dos best sellers. Sei que estar entre os mais vendidos na França (esse livro liderou a lista de lá em 2006 e vendeu 850 mil exemplares) não é a mesma coisa de ser best seller nos Estados Unidos ou no Brasil – e ai vocês podem dizer: mas esse é mais um preconceito! É verdade, mas já me decepcionei tanto com o que a massa costuma achar ótimo que evito os best sellers, mesmo.

O segundo preconceito a se vencer é mais secreto, contra aquela íntima impaciência com os livros que demoram a pegar. O vocabulário espanhol tem a palavra certa: impaciência com os livros que não “enganchan”, não viciam logo de cara. Em alguns trechos, “A elegância do ouriço” parece dar voltas, alongar o caminho, o tornando mais sinuoso, e retardando a chegada. No entanto, um conselho: insistam, valerá a pena.

De modo geral, o enredo traz o dia a dia em um classudo edifício de Paris, onde uma vizinhança burguesa e pretensiosa é constantemente avaliada e alfinetada em dois diários escritos simultaneamente, por moradoras bem diferentes. Uma é a concierge de meia-idade, que lê Proust, ouve música clássica e divaga sobre conceitos de filosofia e de teoria literária. A outra é uma pré-adolescente infeliz, assustadoramente inteligente para sua idade e que planeja o próprio suicídio quando completar 13 anos, ou seja, dali a seis meses. As duas podiam perfeitamente ser mãe e filha, mas seus destinos só começam a se cruzar de fato com a chegada de um novo morador ao edifício, um milionário japonês de sorriso farto e muita sensibilidade.

Há várias questões em pauta no livro de Muriel, que além de escritora é professora de filosofia. O abismo social parisiense, que em muito lembra o antiquado sistema de castas; o papel da arte (e, mais precisamente, da literatura) enquanto sustentação dos desejos mais vitais do homem; e o caráter insuportável da lucidez são algumas. Mas, acima de todas essas discussões, está uma temática muito sedutora: “A elegância do ouriço” é, sobretudo, um livro sobre uma mulher.

Renée, ou a sra Michel, é a personagem forte da trama. Primeiro pela forma peculiar com que constrói sua fortaleza particular. Ela acredita que fingir ser uma concierge de formação cultural rasteira, como seria qualquer outra de Paris ou do mundo, garante a invisibilidade que lhe mantém protegida há 27 anos no mesmo posto de trabalho. Como um ouriço, Renée se protege crivada de espinhos e prefere passar-se por medíocre a ser desmascarada pela mente brilhante que é.

Pessoalmente, esse livro me levou ao encontro de emoções fortíssimas. Fez com que relembrasse os últimos momentos de vida do Marquinhos; me fez ver, mais uma vez, que o importante é o hoje e que trauma nenhum pode ser freio e que a vida, essa coisa que a gente dá tanto valor, é uma sucessão de dias, meses e anos. E que se a gente não fizer desse tempo algo prazeroso, nem vale a pena. Porque não existe gran finale. É agora ou nunca. A eternidade é efêmera e viver é buscar o sempre no nunca.

Sugestão: a trilha sonora desse livro, para mim, claro, é “Nicest thing”, de Kate Nash. Da letra, misturada ao livro, fiz um versinho:
“Tomara que eu tenha sido a última coisa na sua mente, quando você adormeceu.
Torço tanto para que tenha sido o meu rosto a última imagem na sua mente, congelada, eternizada... um sempre no nunca.” (MB)

p.s.: Mais uma vez, devo essa leitura de prazer à minha amiga Nina, que recebeu a indicação da mãe e repassou para mim. Bela dica, belo empréstimo!

Recortes:
“Fora o amor, a amizade e a beleza da Arte, não vejo muitas outras coisas capazes de alimentar a vida humana.” (pag.37)

“(...) Porque o que é bonito é o que captamos enquanto passa. É a configuração efêmera das coisas no momento em que vemos ao mesmo tempo a beleza e a morte.
Ai, ai, ai, pensei, será que isso quer dizer que é assim que temos de viver a vida? Sempre em equilíbrio entre a beleza e a morte, o movimento e seu desaparecimento?
Estar vivo talvez seja isto: espreitar os instantes que morrem.” (pag. 293)

“Pela primeira vez na vida senti o significado da palavra nunca. Bem, é terrível. A gente pronuncia essa palavra cem vezes por dia, mas não sabe o que diz antes de ter sido confrontado com um verdadeiro ‘nunca mais’”. (pag.348)

A música

Nicest Thing
(Kate Nash)

Dá para ouvir no:
http://letras.terra.com.br/kate-nash/988784/

All I know is that you're so nice
You're the nicest thing I've seen
I wish that we could give it a go
See if we could be something

I wish I was your favorite girl
I wish you thought I was the reason you are in the world
I wish my smile was your favorite kind of smile
I wish the way that I dress was your favourite kind of style
I wish you couldn't figure me out
But you'd always wanna know what I was about

I wish you'd hold my hand when I was upset
I wish you'd never forget the look on my face when we first met
I wish you had a favourite beauty spot that you loved secretly
'Cos it was on a hidden bit that nobody else could see

Basically, I wish that you loved me
I wish that you needed me
I wish that you knew when I said two sugars, actually I meant three
I wish that without me your heart would break
I wish that without me you'd be spending the rest of your nights awake
I wish that without me you couldn't eat
I wish I was the last thing on your mind before you went to sleep

All I know is that you're the nicest thing I've ever seen
And I wish we could see if we could be something
And I wish we could see if we could be something

segunda-feira, 21 de julho de 2008

O fim de Nathan Zuckerman


(As várias faces de Nathan, fotografadas numa livraria em Amsterdam)

Nesta semana no UOL, resenha do ótimo “Fantasma sai de cena”, de Philip Roth. Gostei de ler esse livro por alguns motivos em especial. Primeiro porque acho mesmo que Roth é um grande escritor de nosso tempo. Segundo porque, tudo indica, essa é a despedida do alter ego Nathan Zuckerman, um personagem tão interessante quanto curioso. E, terceiro, porque Roth era um dos autores preferidos do Marquinhos. Acho que ele leu todos os livros do Nathan traduzidos ao português. Nas nossas férias, em Amsterdam, “Exit ghost” já estava à venda. Tomamos um susto com a idéia de que era o fim de Nathan, mas não compramos o livro. A mala já estava pesada demais e, sei lá, não quisemos comprar. Ele não leu, mas eu li por ele.
Go, go, go:
http://diversao.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/2008/07/20/ult5668u44.jhtm

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Velhice interrompida


Por muito tempo, achei que conseguia reconhecer os que viverão muito dos que morrerão cedo. Pensava: os primeiros não têm pressa, vivem com uma tranqüilidade embutida nos pequenos gestos, passam paz, parecem entender que tudo ter seu tempo não significa que o tempo é sempre agora. Já os de morte marcada têm pressa, correm, fogem, tropeçam, perdem o fôlego. São bons de serem observados, têm a intensidade inscrita no olhar, farejam o caminho seguro tão fácil que quase nunca erram a direção. Não têm tempo para voltar atrás.

Como bom geminiano, Marquinhos não era inteiramente um, nem outro. Mas se eu tivesse que escolher quem seria ele, tendo a enxergá-lo no primeiro. Ele era intenso, sim, mas não tropeçava nos próprios passos. Gostava de ficar quieto, pensando. Era capaz de passar horas do seu fim de semana deitado no sofá, pensando. Ou, como gostava de dizer, fazendo nada. Aliás, não fazer nada era algo que ele exercitava com muita disciplina. Ele precisava, depois de uma semana de muito trabalho mental, não fazer nada a sério. Eu não faço nada lendo, vendo TV, brincando com os cachorros, caminhando no parque – é o máximo que consigo de nada em minha vida. Com ele era diferente.

O Marquinhos era muito objetivo, incrivelmente racional, embora, em seus últimos meses de vida, ele me confidenciou que começava a acreditar que, de fato, o lado emocional é mais forte do que o racional no ser humano. Isso foi uma quebra de paradigma, motivada e muito pelas aulas e leituras sobre psicologia social, do MBA que estava fazendo. Mas, enfim, mesmo tendendo um pouco mais ao emocional, ele continuava sendo um ser racional. Não perdia tempo com lamúrias, focava no que realmente lhe interessava e tinha um poder incrível de abstrair. Eu, pisciana com ascendente em Peixes, não conseguia acompanhá-lo.

Ele tinha pressa, sim, e fez tudo muito cedo na vida. Quando ainda era estagiário fez uma matéria bombástica que lhe rendeu seguidas ameaças de morte e uma passagem só de ida para bem longe do Recife. Para nunca mais voltar. Com 17 anos, escrevia cartas de amor em que dizia, sem nenhum pudor de juventude, que eu era a mulher da vida dele. Assim o foi. Mas, ao mesmo tempo, era um homem que parecia dispor de todo tempo do mundo. Sempre abria espaço para ouvir quem quer que fosse. E achava mesmo que podia aprender com todo mundo, do chefe turrão ao taxista que se abria como um velho amigo, talvez por reconhecer nele alguém que sabia das coisas.

Eu via o Marquinhos velho, conseguia enxergá-lo aos 70 anos, com os bolsos da calça cheios de balinhas (como bem descreveu um dia o Michel) e comprimidos para dor de cabeça, cabelos cinza, talvez uma bengala fazendo par com chapéu, não por necessidade, mas por charme. Eu via o Marquinhos aposentado, ganhando para não fazer nada, escrevendo livros e cercado de cachorros (gatos, não!). Eu via o Marquinhos enrolando um cigarro de palha aos 70 e poucos, fazendo pouco caso para as recomendações médicas e se deliciando com a gordura da picanha, assada por ele mesmo no forno a lenha. Eu podia vê-lo em uma de suas intermináveis festas, com nossos amigos, alguns grisalhos, muitos carecas, música eletrônica alta na vitrola, e nossos filhos resmungando que aquilo era música de velho. Era tão nítida a imagem dele velhinho, brigão, cheio de opinião, sempre disposto a mudar o pensamento do outro e tão seguro do seu próprio.

Quem diria, não vai ser assim.
Nesta sexta, são três meses que essa história mudou de rumo.


Ócio
(Por Marcos Gusmão)

Se faço, nada termino
Se começo, descanso
Se sigo, descompasso
Um passo, destino.

Sol, suspiro, resisto
Se me entrego, faleço
Respiro, respiro
Ouço, esqueço...

Não me aborreço
Se sigo, persigo
Me inquieto, insisto
Um passo, desatino.

Descanso, faleço
Termino suspenso.
Se vôo, imagino
Se fico, tropeço.

Miro disforme, d’ouro ébrio,
Enquanto nada me acomoda na noite.

Aqui, suspiro, entrego,
enquanto de novo
o sol salta sobre a casa.

Bebo, sacio,
Entorpeço.
Vinho, outra taça.
Um cão dorme tranqüilo.

Se sigo, reviro entorno,
Seco festejo, me acomodo
na segunda-feira.

Cortejo, então, um céu sem nuvens
Balbucio qualquer palavra
Numa rua que me despreza.

Em quatro paredes sufoco
O dia que se finda numa vida breve, conforto.

Descubro, a pedra se faz ao caminhar.
Ao sair da toca, incito a besta.
Não corro, confio.

O que fazem ali os animais?
Brincam ou pelejam,
enquanto mecânico termino?

Da casa, às paredes lanço meu olhar mecânico.
Descrente, acalma.

Do interior, música
Marcha, melancolia
Um vento, gemido num sonho.

Da vida, o sábado
Quando meu corpo despreza
A rua que é só rua.

Dois cães adormecem alimentados
Sempre casa, cães e sábados.

(escrito num sábado entre finais de fevereiro e meados de março de 2008)